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16 levantadas por dia inflamam o punho do pai

O polegar aberto a cada troca e mamada aperta dois tendões do punho, e as duas mãos em concha tiram o dedo do esforço.

Pai ergue o bebê do berço com as duas mãos em concha

As duas mãos por baixo, polegar colado

▼

16 levantadas por dia, na primeira semana de vida. É a conta mínima de um recém-nascido: oito trocas de fralda e oito mamadas, cada uma começando com alguém tirando o bebê do berço ou do trocador.

O gesto parece o de pegar uma sacola no chão. As duas mãos entram por baixo das axilas do bebê, os quatro dedos nas costas, e o polegar fica aberto na frente do peito, apontado para cima. O pai ergue os 3 quilos e pouco, e o punho dobra de leve para o lado do dedo mínimo.

São 3h da manhã. O bebê chora no berço, o pai se inclina por cima da grade e repete o movimento pela quinta vez desde a meia-noite. Na terceira semana, ao torcer o pano de prato, aparece uma pontada na base do polegar, do lado de fora do punho.

Ele culpa o celular, o mouse do trabalho, a academia. Passa uma pomada e segue. A dor volta sempre que abre a lata de leite em pó, gira a chave do carro ou segura a mamadeira com a mão espalmada.

Algumas semanas depois, surge um inchaço do tamanho de uma ervilha logo acima do osso saliente do punho. Levantar o bebê, o gesto que começou o problema, passa a doer mais do que qualquer outro.

O quadro tem nome de médico: tenossinovite de De Quervain (inflamação da bainha que envolve dois tendões do polegar). Os ortopedistas conhecem a dor de outra sala, a das mães nas semanas depois do parto, e a literatura em inglês a apelidou de mommy thumb (polegar de mãe).

O pai que faz o turno da madrugada entra na mesma conta. O tendão não sabe quem é o pai e quem é a mãe; ele responde ao número de repetições e à posição do dedo em cada uma delas.

A parte boa está na mão do próprio pai. O polegar aberto carrega o esforço, e existe um jeito de levantar o bebê que deixa esse dedo de fora.

A seguir, o cirurgião suíço que descreveu a doença no século 19, o passo a passo das duas mãos em concha e quanto custa cada semana de dor ignorada.

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I  O Fato da Semana

O cirurgião suíço e os cinco punhos de 1895

A resposta de ontem

Quem foi o Denis Browne da barra entre as botas?

Sir Denis Browne (1892 a 1967) nasceu em Melbourne, na Austrália, e operou crianças no Great Ormond Street Hospital, em Londres, onde é lembrado como fundador da cirurgia pediátrica britânica. Nos anos 1930 ele desenhou a tala de metal que une os dois pés do bebê, a peça que Ignacio Ponseti adaptou para segurar a correção do pé torto.

O protagonista. Fritz de Quervain nasceu em 1868 na Suíça e fez carreira como cirurgião. Clinicou na cidade relojoeira de La Chaux-de-Fonds e, a partir de 1918, chefiou a clínica cirúrgica da Universidade de Berna, cargo que ocupou por duas décadas.

O artigo. Em 1895, ele publicou no Correspondenz-Blatt für Schweizer Aerzte (boletim dos médicos suíços) a descrição de cinco pacientes com dor do lado do polegar e a bainha dos tendões engrossada. Os cinco tinham em comum o uso repetido da mão, e a dor piorava ao mover o dedo.

Os dois tendões. O problema mora em dois tendões vizinhos: o abdutor longo do polegar, que afasta o dedo da mão, e o extensor curto do polegar, que o estica para trás. Os dois correm juntos dentro de uma bainha (um tubo de tecido liso que deixa o tendão deslizar).

O túnel. Na altura do punho, essa bainha atravessa o primeiro compartimento dorsal (o primeiro dos seis túneis de tendões nas costas do punho). Ele passa por cima do processo estiloide do rádio, a ponta de osso saliente do lado do polegar, e é estreito por natureza.

O atrito. Com repetição, a bainha engrossa e o túnel aperta. O tendão passa a raspar a cada movimento, e o raspar gera mais espessamento. Quando os patologistas olham o tecido no microscópio, encontram mais engrossamento e degeneração do que inflamação, mas o termo antigo ficou.

O gesto que aperta. O polegar aberto, afastado da mão, puxa os dois tendões ao máximo. Somado ao punho dobrado para o lado do dedo mínimo, é a posição que mais estica o túnel. É exatamente a posição de quem ergue um bebê pelas axilas.

A mãe e o pai. Nas mães, os ortopedistas apontam duas causas somadas: o líquido retido na gestação e na amamentação, que incha os tecidos, e a repetição do colo. O pai só tem a segunda. Quando ele adoece, o gesto basta como causa.

O teste de casa. Feche a mão com o polegar dobrado dentro dos outros dedos e incline o punho para o lado do dedo mínimo. Dor aguda na base do polegar, do lado de fora, é o sinal clássico. Nos consultórios, a manobra atende como teste de Finkelstein.

A outra doença. O mesmo cirurgião deixou o sobrenome em uma segunda condição, a tireoidite de De Quervain (inflamação da tireoide que costuma seguir uma virose). Os dois quadros não têm relação entre si.

Na nossa opinião: a doença leva o sobrenome de um suíço do século 19, mas o mecanismo cabe em uma frase. Dedo aberto e punho torto, repetidos centenas de vezes, apertam um túnel que já nasceu estreito.

 
 

II  Guia Prático

As duas mãos em concha

A troca de gesto. O conserto não pede aparelho. Pede tirar o polegar do esforço e passar a carga para a palma inteira e para o braço, com o punho reto.

Como levantar, passo a passo:

1. Chegue perto do berço ou do trocador, com o quadril encostado na borda, sem esticar os braços.

2. Deslize uma mão por baixo da cabeça e da nuca e a outra por baixo do bumbum, com as palmas viradas para cima.

3. Cole o polegar ao indicador, com os dedos juntos, e deixe cada mão funda como uma colher.

4. Traga o bebê junto ao peito antes de subir, com os cotovelos encostados no corpo.

5. Suba com as pernas, mantendo o punho reto, alinhado ao antebraço.

Por que funciona. Com o polegar colado, os dois tendões ficam frouxos dentro do túnel. O peso vai para a palma e para os músculos do antebraço e do ombro, que aguentam carga sem raspar em osso.

A mamadeira. Segure pela base, com a mão inteira em volta, e não pinçada entre o polegar e o indicador. Na hora de arrotar, apoie o bebê no ombro com a palma aberta nas costas, sem segurar pela axila.

A altura do trocador. Trocador na altura da cintura poupa o punho e as costas. Se o móvel for baixo, ajoelhe ao lado da cama e mantenha as costas retas.

O carrinho e o bebê-conforto. O bebê-conforto pendurado na dobra do punho é o segundo vilão da casa. Carregue com a alça no antebraço, perto do cotovelo, ou com as duas mãos.

A tala da noite. Se a dor já começou, a farmácia vende a órtese para polegar (tala que imobiliza o punho e a base do dedo, deixando a ponta livre). Ela segura o túnel em repouso enquanto o pai dorme e nas horas sem bebê no colo.

O gelo. Uma bolsa de gelo envolta num pano, por dez minutos, sobre o lado do polegar, depois da última mamada da noite, alivia a dor do dia.

Quando ir ao médico. Duas semanas de dor mesmo com o gesto trocado pedem ortopedista ou médico de mão. Dormência nos dedos ou dor que acorda à noite pedem consulta antes, porque podem ser outro quadro, como a síndrome do túnel do carpo.

Quem divide. Combine com a parceira quem faz as levantadas da madrugada em semanas alternadas. Dois punhos dividindo a conta cortam a carga de cada um pela metade.

 

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III  A Conta

83% com uma injeção

A conta das levantadas. São 16 por dia, ou perto de 480 no primeiro mês. No primeiro ano, a conta passa de 5.800, sem somar o colo para ninar, o banho e o bebê-conforto.

O estudo. Os médicos Carlton Richie e William Briner revisaram os tratamentos da doença e publicaram em 2003, no Journal of the American Board of Family Practice, uma meta-análise (estudo que soma os resultados de vários outros). A injeção de corticoide sozinha curou 83% dos casos. A tala sozinha, 14%.

A injeção. O corticoide vai dentro da bainha, no próprio consultório, às vezes guiado por ultrassom. A melhora costuma vir em dias ou semanas, e o médico pode repetir a aplicação se a dor voltar.

Por que a tala perde. A tala põe o túnel em repouso, mas não desfaz o espessamento. Sozinha, ela funciona como parte do tratamento, e serve para proteger o punho enquanto o gesto é corrigido.

A cirurgia. Quando a injeção falha, o cirurgião abre o teto do primeiro compartimento por um corte pequeno na pele, com anestesia local, e o paciente vai para casa no mesmo dia. O tendão volta a deslizar sem aperto.

O detalhe que falha. Muita gente tem o extensor curto do polegar num túnel próprio, separado do outro tendão por uma parede de tecido. Se o cirurgião abre só um dos túneis, a dor continua. O outro risco é o ramo sensitivo do nervo radial, que passa ali e, se ferido, deixa formigamento nas costas do polegar.

O custo da semana ignorada. Enquanto o pai segue erguendo o bebê com o polegar aberto, o túnel continua apertando. A dor de algumas semanas vira meses, e o tratamento sobe de degrau: da troca de gesto para a tala, da tala para a injeção.

O que fica em casa. As duas mãos em concha valem também depois da cura. O tendão que já inflamou uma vez volta a doer se o gesto antigo voltar.

Na nossa opinião: o punho do pai é ferramenta do turno. Cuidar dele no começo da dor custa a troca de um gesto; no fim, pode custar uma injeção e semanas segurando o filho com uma mão só.

Hoje: nas próximas 8 vezes que tirar o bebê do berço, use as duas mãos em concha, e faça uma vez o teste do punho fechado antes de dormir, anotando se doeu.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem foi o Finkelstein que deu seu sobrenome ao teste do punho fechado?

 
 
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