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3 horas de colo derrubam a testosterona

Em 2011, a PNAS publicou o estudo de Cebu com 624 homens nas Filipinas. Quem virou pai e cuidou mais viu o hormônio cair mais.

Pai jovem segura o bebê adormecido no peito, à noite

O colo da noite, na cozinha de casa

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624 homens. Foi o grupo que a Northwestern University acompanhou em Cebu, nas Filipinas, por quatro anos e meio, num estudo publicado na revista PNAS em 2011.

Agora pense na sua noite de terça. O bebê dormiu no seu peito às onze, você não lembra a última vez que treinou, e a vontade de sair com os amigos sumiu sem aviso. No sábado, a pelada ficou para depois, e você nem sentiu falta.

Muito pai sente a mudança e guarda para si. Parece cansaço, parece idade, parece a falta de sono do primeiro ano. Alguns tiram a conclusão errada e acham que o corpo começou a falhar.

A testosterona (o principal hormônio sexual masculino, ligado à libido, ao músculo e à disputa) costuma levar a culpa nas conversas de academia. E a culpa tem algum fundamento: o hormônio do pai cai mesmo depois do nascimento.

O que pouca gente sabe é o desenho da queda. Ela não chega igual para todo homem com filho. Ela acompanha o tempo de cuidado, e quem passa mais horas com o bebê no colo cai mais.

Os pesquisadores de Cebu tinham uma vantagem rara. Eles mediram o hormônio desses homens antes de qualquer um deles ser pai, quando todos eram solteiros e sem filhos, perto dos 21 anos.

Quatro anos e meio depois, mediram de novo. No meio do caminho, parte do grupo casou e teve filho, parte continuou sozinha. A comparação entre os dois grupos mostra o efeito da paternidade no mesmo homem, antes e depois.

A pergunta prática fica direta: a queda é um defeito a corrigir ou um ajuste do corpo para a nova função?

A resposta começa com a primeira coleta de saliva, em 2005, num grupo de rapazes solteiros que ainda nem pensavam em fralda.

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I  O Fato da Semana

A saliva de 2005 e a de 2009

O estudo. O artigo saiu em setembro de 2011 na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, a revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos). Os autores são Lee Gettler, Thomas McDade, Alan Feranil e Christopher Kuzawa, da Northwestern University e da Universidade de San Carlos, em Cebu.

A base. Os homens vinham do Cebu Longitudinal Health and Nutrition Survey (um levantamento de saúde e nutrição de Cebu), uma pesquisa que acompanha desde 1983 as famílias de bebês nascidos na cidade. Os pais do estudo de 2011 eram esses bebês, já adultos.

A coleta. Cada homem deu duas amostras de saliva no mesmo dia: uma ao acordar e outra antes de dormir. A testosterona sobe de manhã e desce à noite, e as duas medidas mostram o ponto alto e o ponto baixo do dia.

O primeiro achado. Os homens com testosterona mais alta em 2005 foram os mais propensos a arrumar parceira e ter filho até 2009. O hormônio alto ajuda na fase de conquista, e o próprio grupo do hormônio alto foi quem virou pai.

O segundo achado. Depois do nascimento, os novos pais tiveram queda maior no hormônio. Segundo o artigo de Gettler e colegas na PNAS de 2011, a testosterona da manhã caiu 26% nos novos pais com filho pequeno, e a da noite caiu 34%. Os homens sem filho também tiveram queda com a idade, mas bem menor.

O terceiro achado. Entre os pais, os que cuidavam do filho por três horas ou mais por dia tinham a testosterona mais baixa de todos. O cuidado diário entrava na conta, e a simples condição de pai não explicava tudo. Brincar, dar banho, alimentar e pôr para dormir contavam como cuidado.

Lee Gettler resumiu no comunicado da Northwestern University, em 2011: “Nosso estudo indica que o corpo de um homem pode mudar de forma substancial para ajudar a atender às demandas da paternidade.”

A leitura dos autores. Para a equipe, o corpo masculino evoluiu para mudar de modo quando o filho chega. Menos hormônio de disputa, mais disponibilidade para o cuidado. É um ajuste com função, e nenhum sinal de doença.

O que não se sabe. O estudo é de homens de uma cidade só, nas Filipinas. Ele não mediu se a queda faz o pai cuidar melhor ou se cuidar faz o hormônio cair; o desenho mostra a ligação, mas a direção da causa ficou em aberto.

Na nossa opinião: a queda da testosterona do pai merece o nome de adaptação, e a ciência tem dado sinais firmes nessa direção.

 
 

II  Guia Prático

Cuidar do corpo sem brigar com o hormônio

A regra do exame. Queda natural depois do filho não pede remédio. Antes de qualquer conclusão, o pai precisa de um exame de sangue, com o laudo lido por um médico, e nunca de uma suspeita formada no espelho.

A hora certa. A testosterona varia ao longo do dia. O exame de sangue sai mais confiável quando colhido de manhã cedo, entre sete e dez horas, em jejum. Um resultado baixo isolado costuma ser repetido antes de qualquer diagnóstico.

O sinal de alerta. Libido zerada por meses, perda de ereção matinal, cansaço que não melhora com descanso e tristeza persistente pedem consulta com urologista ou endocrinologista. A tristeza persistente também pode ser depressão pós-parto paterna, que existe e tem tratamento.

O que nunca fazer. Nada de gel, injeção ou suplemento de testosterona por conta própria. A testosterona de fora sinaliza ao corpo para parar a produção própria e derruba a fabricação de espermatozoides, o que atrapalha quem planeja um segundo filho.

O sono. É o fator que o pai mais controla. A maior parte da testosterona diária é liberada durante o sono, e a noite picada do primeiro ano pesa. Dividir os turnos da madrugada com a parceira protege as duas noites. Um combinado simples funciona: um cuida até as três da manhã, o outro assume dali em diante.

Os passos para a semana:

1. Durma um bloco de cinco horas seguidas pelo menos três noites por semana, combinando o turno com a parceira.

2. Treine força duas vezes por semana, 30 minutos bastam, em casa ou na academia.

3. Coma proteína em toda refeição principal: ovo, carne, feijão ou peixe.

4. Corte o álcool da semana para no máximo dois dias.

5. Marque o exame de sangue se os sinais de alerta passarem de três meses.

O peso. Gordura abdominal converte testosterona em estrogênio (o hormônio sexual feminino, presente também no homem). O pai que ganhou a barriga do primeiro ano sente a queda dobrada: a do cuidado e a da cintura.

O colo continua. Nenhum desses passos manda cuidar menos do bebê. A queda ligada ao cuidado é a parte saudável da história. O pai mexe no sono, no treino e na comida, e mantém as horas de colo.

Na nossa opinião: o pai cansado precisa de cinco horas de sono seguidas antes de precisar de qualquer frasco.

 

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III  A Conta

Três horas por dia, quatro anos e meio de medição

A conta do cuidado. O corte do estudo de Cebu foi de três horas de cuidado diário. Em uma semana, são 21 horas de colo, banho, troca de fralda e comida na boca. Em um mês, passam de 90 horas.

A conta da queda. Segundo a PNAS de 2011, a testosterona da noite dos novos pais caiu 34%. Para um homem que acordava com o hormônio no ponto alto, a noite passou a fechar com um terço a menos.

A conta do tempo. A medição cobriu quatro anos e meio, de 2005 a 2009. Os homens tinham perto de 21 anos no começo e perto de 26 no fim. A queda dos pais apareceu mesmo nessa faixa de idade, quando o hormônio costuma estar no auge.

A conta do bebê. O efeito foi maior nos pais de recém-nascidos. Gettler e colegas registraram a queda mais forte nos homens com filho de até um mês, a fase em que o bebê exige mais colo à noite.

A conta da volta. O estudo não acompanhou por quanto tempo o hormônio fica baixo. Não se sabe se ele volta ao nível antigo quando o filho cresce, porque a medição de 2011 parou no primeiro retrato depois do nascimento.

A conta do pai brasileiro. O estudo foi feito nas Filipinas, onde a família estendida divide o cuidado. Não existe medição equivalente com pais brasileiros. O desenho da queda, ligado às horas de colo, é a parte do achado que se aplica a qualquer pai.

A conta do registro. Uma anotação por dia basta: as horas de cuidado direto com o bebê, as horas de sono seguidas e um número de zero a dez para a energia. Em duas semanas, a lista mostra se o cansaço segue o sono ou segue outra causa.

Na nossa opinião: o pai que passa três horas por dia com o filho no colo está com o corpo trabalhando a favor da família.

Quantas horas por dia você cuida do seu filho sozinho, sem a mãe por perto?

Hoje: anote no celular as horas de cuidado direto de hoje e as horas de sono da última noite, dois números, antes de deitar.

 
 
Quiz da edição

Segundo o artigo da PNAS de 2011, qual foi a queda na testosterona noturna dos homens que se tornaram pais, comparando com antes do nascimento do filho?

A18%
B26%
C34%
D42%

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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