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A bota de 23 horas segura o pé torto corrigido

O gesso semanal corrige o pé em poucas semanas, e a órtese usada até os 4 anos impede o pé de voltar.

Mãos do pai afivelam as botinhas presas a uma barra nos pés do bebê

A bota com barra, antes de dormir

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1 em cada 1.000 nascimentos. É a frequência do pé torto congênito que o ortopedista Ignacio Ponseti registrou no livro Congenital Clubfoot (pé torto congênito), publicado pela Oxford University Press em 1996.

O pé nasce virado para dentro e para baixo, com a sola voltada para a outra perna. Em boa parte das crianças, os dois pés vêm assim. O ultrassom morfológico do segundo trimestre costuma mostrar a posição antes do parto, e muitos pais chegam à maternidade já avisados.

São 9h de uma segunda no ambulatório de ortopedia. O pai segura o filho de 10 dias no colo enquanto o médico gira o pezinho com os polegares, devagar, por um ou dois minutos. Depois enrola algodão e faixa de gesso da ponta dos dedos até a virilha, com o joelho dobrado em ângulo reto.

O gesso seca em minutos. Na segunda seguinte, ele sai inteiro, o pé ganha mais alguns graus de giro e recebe um gesso novo. Cinco ou seis segundas depois, o pé que apontava para dentro aponta para a frente.

Para a família, parece a cura completa. O tratamento está na metade.

O pé corrigido guarda uma tendência de voltar à posição antiga, e quem segura a correção é uma órtese (aparelho ortopédico): duas botinhas presas a uma barra de metal, usadas 23 horas por dia nos primeiros três meses e depois para dormir, até os 4 anos.

A bota incomoda. O bebê chora nas primeiras noites, a pele avermelha no calcanhar, e a família tira o aparelho num sábado de viagem, depois em outro. Semanas mais tarde, o pé começa a virar de novo para dentro, e a criança volta ao gesso.

O gesso é a parte que acontece no consultório, com hora marcada e médico na sala. A bota acontece na sala de casa, de madrugada, com o pai sozinho diante de um bebê que chora. A recaída se decide nessa segunda metade.

A seguir, como um médico espanhol montou o método em Iowa, como vestir a bota sem briga e quanto custa em recaída cada noite pulada.

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I  O Fato da Semana

O médico de Menorca que trocou o bisturi pelo gesso

O protagonista. Ignacio Ponseti nasceu em 1914 em Ciutadella, na ilha espanhola de Menorca. Atendeu feridos da Guerra Civil Espanhola, deixou o país pelo México e chegou à Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, em 1941, onde trabalhou até 2009, ano em que encerrou a carreira aos 95 anos.

O que ele encontrou. Na Iowa dos anos 1940, o pé torto se tratava com cirurgia extensa: o cirurgião abria o pé, soltava ligamentos e cápsulas das articulações e reposicionava os ossos. Ponseti acompanhou essas crianças até a vida adulta e viu pés rígidos, com cicatriz e dor ao caminhar.

A pista na anatomia. Ele estudou pés tortos de fetos e bebês e concluiu que, no recém-nascido, ligamentos, tendões e cartilagem ainda cedem a uma força leve e constante. Os ossos não estavam quebrados nem deformados de forma fixa: estavam fora de lugar, presos por tecido curto demais.

A ordem do giro. O método corrige quatro desvios numa sequência fixa. Primeiro o cavo (arco alto demais na sola). Depois o aduto e o varo (a ponta virada para dentro e o calcanhar inclinado para dentro) juntos, girando o pé para fora em torno do tálus, o osso do tornozelo. Por último, o equino (a ponta apontada para baixo).

O polegar no lugar certo. O médico apoia o polegar na cabeça do tálus, do lado de fora do tornozelo, e usa esse ponto como eixo. Girar o pé contra o ponto errado, como o calcanhar, trava a correção.

O gesso de cada semana. Cada gesso segura o ganho daquela sessão por sete dias, enquanto o tecido se alonga. Ele vai até a virilha com o joelho dobrado, para o pé não escapar de dentro. Na maioria dos bebês, cinco ou seis trocas bastam.

O tendão. Na maioria das crianças, o calcanhar segue puxado para baixo depois dos gessos. O médico faz a tenotomia (um corte pequeno do tendão de Aquiles, pela pele, com anestesia local) no próprio consultório. O último gesso fica três semanas, e o tendão se refaz no comprimento novo.

A publicação e a demora. Ponseti e o colega Eugene Smoley publicaram os resultados no Journal of Bone and Joint Surgery em 1963. A ortopedia seguiu operando por décadas. Na segunda metade dos anos 1990, pais de crianças tratadas em Iowa contaram o resultado em fóruns da internet, e outras famílias passaram a pedir o método aos seus médicos.

Na nossa opinião: o achado de Ponseti foi usar o tempo a favor do bebê. Seis semanas de gesso no começo da vida pouparam a geração seguinte de uma cirurgia que deixava sequela.

 
 

II  Guia Prático

Meia, calcanhar, tira e cadarço

O aparelho. A órtese de abdução (abdução quer dizer afastamento do pé para fora) junta duas botinhas abertas a uma barra de metal, a barra de Denis Browne. A largura da barra acompanha a distância entre os ombros do bebê.

O ângulo. O pé tratado fica girado para fora entre 60 e 70 graus. O pé sem pé torto, quando só um nasceu assim, fica entre 30 e 40 graus. O ortopedista ajusta os parafusos da barra, e a família não mexe nesse ângulo em casa.

O calendário. Nos três primeiros meses depois do último gesso, a bota fica 23 horas por dia. A hora livre serve para o banho e para a pele respirar. Depois, ela passa a ser usada nas sonecas e na noite, entre 12 e 14 horas por dia, até os 4 anos.

Como vestir, passo a passo:

1. Calce uma meia de algodão sem costura grossa, um pouco mais alta do que a bota.

2. Encaixe o calcanhar no fundo da bota, com o joelho do bebê dobrado para relaxar a panturrilha.

3. Afivele primeiro a tira do tornozelo, a que segura o calcanhar no lugar, antes de qualquer outra.

4. Amarre o cadarço ou feche as tiras da frente, firmes sem apertar os dedos.

5. Confira pelo furo do calcanhar que a pele encosta no fundo e que os dedos ficam retos e rosados.

As primeiras noites. O bebê estranha as pernas presas e chora. Brinque com ele de dobrar e esticar as duas pernas juntas, com a barra no lugar, por alguns minutos ao dia. Em poucos dias ele aprende a chutar com as duas ao mesmo tempo.

A pele. Vermelhidão leve que some em uma hora depois de tirar a bota é esperada. Bolha, ferida aberta ou marca roxa no calcanhar pedem contato com o ortopedista no mesmo dia, e a bota não sai por conta própria.

O calcanhar que sobe. Se o calcanhar escapa do fundo, o pé escorrega para a frente e a bota machuca. A causa mais comum é a tira do tornozelo frouxa. Aperte essa tira um furo, nunca o cadarço da ponta.

O tamanho. O pé cresce e a bota perde o encaixe. Dedos saindo da sola pedem bota nova, e a família leva a antiga na consulta para o ortopedista medir.

Quem veste. Combine em casa um responsável por vestir a bota antes de dormir. O mesmo jeito, na mesma hora, todo dia, encurta o choro e tira a decisão das mãos de quem está cansado às 2h.

 

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III  A Conta

183 vezes mais recaída

A conta das horas. Três meses a 23 horas por dia somam perto de 2.070 horas de bota. Do terceiro mês até os 4 anos, a 12 horas por noite, são cerca de 16 mil horas a mais. A soma passa de 18 mil horas, quase todas com a criança dormindo.

O estudo. Matthew Dobbs e colegas, da Universidade Washington em St. Louis, publicaram em 2004 no Journal of Bone and Joint Surgery uma análise de crianças tratadas pelo método. Quem não usou a órtese como prescrito teve chance de recaída 183 vezes maior do que quem usou.

O peso da casa. No mesmo trabalho, a escolaridade dos pais pesou: famílias com pais de até o ensino médio completo tiveram mais abandono da bota. O estudo mediu o que acontece em casa, e o pé respondeu ao uso do aparelho.

Como a recaída aparece. O primeiro sinal costuma ser o calcanhar que deixa de descer quando a criança fica em pé, ou a ponta do pé que volta a virar para dentro ao andar. A criança pisa com a borda de fora do pé.

O que vem depois. A recaída precoce volta para a série de gessos, às vezes com nova tenotomia. Na recaída que se repete, o ortopedista pode transferir o tendão tibial anterior (o tendão que puxa a ponta do pé para dentro) para o lado de fora, perto dos 3 anos.

A conta da noite pulada. Uma noite sem bota não desfaz a correção. Uma semana de noites puladas numa viagem já soma perto de 80 horas fora do aparelho, e a pele perde o costume. Na volta, o choro recomeça do zero.

O que a família guarda. Um caderno com uma linha por noite, marcando a hora em que a bota entrou e saiu, mostra ao ortopedista quanto o aparelho foi usado. O médico ajusta o plano com esse número na mão.

Na nossa opinião: a bota merece o mesmo lugar fixo da escova de dente na rotina da noite. Ela trabalha enquanto a criança dorme, e cada noite cumprida protege o resultado do gesso.

Hoje: abra a Caderneta da Criança na página do exame físico do recém-nascido, uma página, e confira em cinco minutos se o campo dos pés está preenchido.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem foi o Denis Browne que deu seu sobrenome à barra entre as duas botas?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual é a causa mais comum de o calcanhar escapar do fundo da bota e machucar o bebê?

AA meia estar com costura grossa
BA barra estar com a largura errada para os ombros
CA tira do tornozelo estar frouxa
DO bebê ter crescido mais rápido que o previsto

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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