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A moleira aberta deixa a cabeça crescer 2 cm por mês

O perímetro cefálico sobe rápido até os 3 meses, e o pediatra lê o salto de duas curvas na caderneta, nunca a medida solta.

Mãos do pai passam uma fita métrica em volta da cabeça do bebê, acima das sobrancelhas

A fita acima das sobrancelhas, na consulta

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2 centímetros por mês. Pelas curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde, publicadas em 2006, é quanto a volta da cabeça de um bebê costuma ganhar nos 3 primeiros meses de vida.

Nenhuma outra medida do corpo anda nesse ritmo depois do parto. O motivo mora dentro do crânio: o cérebro do recém-nascido ainda está montando conexões, e os ossos da cabeça, separados por faixas moles, abrem espaço para ele.

São 10h de uma quinta, no posto de saúde. A enfermeira passa uma fita fina em volta da cabeça do bebê, logo acima das sobrancelhas, e anota um número na caderneta. O pai segura o filho no colo e lê de cabeça para baixo: 39,5.

Ele não sabe se 39,5 é bom. A tia jura que o primo tinha a cabeça maior, o avô diz que cabeça grande é sinal de inteligência, e a caderneta continua aberta na mesa, com uma página cheia de linhas coloridas.

A página tem nome técnico: gráfico de perímetro cefálico (a medida da circunferência da cabeça, tomada com fita). Ela fica perto da página do peso e funciona com outra lógica, porque a cabeça cresce depressa no começo e quase para depois dos 2 anos.

O pediatra não lê o 39,5 sozinho. Ele marca o ponto do dia, liga esse ponto ao da consulta anterior e olha a direção do traço. Uma cabeça pequena que sempre andou na mesma faixa conta uma história tranquila. Uma cabeça mediana que atravessou duas linhas do gráfico em poucas semanas pede investigação.

A moleira ajuda na leitura. O nome popular vale para as fontanelas (os espaços moles entre os ossos do crânio), e a maior delas, no alto da testa, costuma fechar entre o primeiro e o segundo ano. Enquanto ela está aberta, a cabeça tem por onde crescer.

Para entender o traço que o pediatra desenha, vale conhecer o estudo que criou essas linhas e o surto que, em 2015, tirou a fita métrica da gaveta em todo o país.

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I  O Fato da Semana

As linhas nasceram em seis países

A resposta de ontem

Quem elegeu a metilisotiazolinona o alérgeno do ano em 2013?

A American Contact Dermatitis Society, sociedade americana de dermatite de contato. Em 2013, ela deu à metilisotiazolinona o título de alérgeno do ano, para alertar médicos sobre a onda de alergias ao conservante em lenços umedecidos, xampus e cremes, que crescia desde a troca de fórmulas feita pela indústria na década anterior.

O estudo. Entre 1997 e 2003, a Organização Mundial da Saúde acompanhou bebês amamentados em seis cidades de seis países: Brasil, Gana, Índia, Noruega, Omã e Estados Unidos. O trabalho se chamou Estudo Multicêntrico de Referência do Crescimento, e o lado brasileiro ficou em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

A escolha das famílias. Entraram crianças de mães sem tabagismo, com acesso a saúde e com amamentação garantida nos primeiros meses. A ideia era medir como um bebê cresce quando nada atrapalha, e não apenas como cresce a média de um lugar.

O resultado de 2006. As curvas publicadas pela OMS mostraram bebês de continentes diferentes crescendo em ritmos muito parecidos quando recebem cuidado parecido. A conclusão virou padrão internacional, e o Ministério da Saúde adotou as curvas na Caderneta da Criança.

O desenho da página. No gráfico do perímetro cefálico, cada linha representa um escore-z (a distância da média, contada em desvios-padrão). A linha central é a média. As linhas de cima e de baixo marcam bebês cada vez mais longe dela, e a caderneta separa meninos e meninas em páginas próprias.

O surto que mudou o posto. Em novembro de 2015, o Ministério da Saúde declarou emergência sanitária nacional pelo aumento de bebês nascidos com microcefalia (cabeça muito menor do previsto para a idade) em Pernambuco e em outros estados do Nordeste. A investigação ligou os casos à infecção pelo vírus zika durante a gestação.

A conta de Pelotas. A participação brasileira pesou no padrão. As mães de Pelotas seguiram as mesmas regras de amamentação das outras cidades, e os filhos delas cresceram dentro da mesma faixa, prova de que a curva da caderneta descreve o bebê brasileiro bem cuidado.

O corte ajustado. No mesmo surto, o ministério mudou duas vezes a medida usada para triagem do recém-nascido a termo. Em março de 2016, alinhou o corte ao padrão internacional: 31,9 centímetros para meninos e 31,5 centímetros para meninas, medidos logo depois do parto.

O efeito na rotina. A fita voltou a aparecer em toda consulta de puericultura (o acompanhamento do bebê saudável). O pai que nunca tinha reparado na terceira página da caderneta começou a ver a enfermeira medir a cabeça antes do peso.

Na nossa opinião: o surto ensinou o valor da medida e também o risco dela. Um número abaixo do corte pede exame, e muitos bebês pequenos são apenas filhos de pais de cabeça pequena. A confirmação vem do acompanhamento, consulta a consulta.

 
 

II  Guia Prático

A fita, a caderneta e o lápis

Como se mede. A fita precisa ser inextensível (que não estica), de papel ou plástico fino. Ela passa logo acima das sobrancelhas, contorna a parte mais saliente da nuca e fecha na testa. É a maior volta possível da cabeça, e o profissional costuma repetir a medida para conferir.

O cuidado com o cabelo. Tiara, laço e trança alta somam milímetros. Na consulta, solte o cabelo da criança antes da fita. Um bebê agitado também atrapalha: medir no colo, com o rosto voltado para o pai, costuma dar a leitura mais estável.

A leitura da página, passo a passo:

1. Ache a idade no eixo de baixo, em meses completos desde o nascimento.

2. Suba até a medida do dia no eixo lateral, em centímetros, e marque o ponto com lápis.

3. Ligue o ponto ao da consulta anterior com um traço reto.

4. Compare o traço com as linhas impressas: ele deve correr ao lado delas, quase paralelo.

5. Conte as linhas atravessadas. Um traço que corta duas linhas entre duas consultas vira assunto da próxima conversa com o pediatra.

O prematuro conta de outro jeito. Para o bebê nascido antes de 37 semanas, o pediatra usa a idade corrigida (a idade contada a partir da data prevista para o parto). Um bebê de 4 meses que nasceu dois meses antes entra no gráfico como se tivesse 2.

Os pais entram na conta. Leve a medida da própria cabeça e a da mãe. A macrocefalia familiar (cabeça grande que corre na família, sem doença) explica muitas curvas altas, e o pediatra só chega a ela com o número dos pais em mãos.

O que acompanha a medida. O médico olha também a moleira, se está macia e plana, e os marcos do desenvolvimento, como sustentar a cabeça e seguir objetos com os olhos. Uma curva acelerada com moleira tensa e vômito pede consulta no mesmo dia.

O pai assume a caderneta. Guarde o livreto na bolsa do bebê, com um lápis preso na capa. Em cada consulta, peça para ver o ponto marcado antes de sair da sala, e fotografe a página com o celular para ter a sequência sempre à mão.

 

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III  A Conta

Seis centímetros em 90 dias

A medida do parto. Pelas tabelas da OMS de 2006, um menino nasce com mediana de 34,5 centímetros de perímetro cefálico. Uma menina, com 33,9.

Os 3 primeiros meses. Aos 3 meses, a mediana do menino chega a 40,5 centímetros. São 6 centímetros em 90 dias, perto de 2 por mês, o ritmo mais rápido que a cabeça terá na vida inteira.

A freada. Entre os 3 e os 6 meses, a mesma tabela mostra ganho perto de 1 centímetro por mês. Do sexto ao décimo segundo mês, o ritmo cai para meio centímetro mensal, e o menino fecha o primeiro aniversário com mediana de 46,1 centímetros.

A largura de uma faixa. Aos 3 meses, cada desvio-padrão do gráfico vale cerca de 1,2 centímetro, pelos mesmos dados da OMS. Atravessar duas linhas, portanto, significa uma cabeça que se afastou em torno de 2,5 centímetros do caminho previsto em poucas semanas.

O erro da fita. Uma medida feita com o bebê chorando, ou com a fita meio centímetro torta, desloca o ponto sem mudar nada na cabeça. Uma consulta isolada pode errar. Duas consultas seguidas no mesmo rumo dificilmente erram juntas.

A conta das consultas. O calendário de puericultura do Ministério da Saúde prevê sete consultas no primeiro ano: na primeira semana, no primeiro mês e depois no segundo, quarto, sexto, nono e décimo segundo meses. São sete pontos, e cada par vizinho desenha um traço.

O tempo de reação. Com consultas mensais até o segundo mês, uma curva que dispara aparece no gráfico em semanas. Hidrocefalia (acúmulo de líquido dentro da cabeça) e craniossinostose (fechamento antecipado das emendas entre os ossos do crânio) têm tratamento, e o diagnóstico cedo muda o resultado.

O ano seguinte. Do primeiro ao segundo aniversário, a cabeça ganha perto de 2 centímetros no ano inteiro, pela mesma tabela. O ritmo de um mês no começo da vida passa a valer doze meses, e a página do gráfico fica quase plana.

O preço da leitura. A fita custa poucos reais, a caderneta vem de graça na maternidade e o lápis está na gaveta. O trabalho do pai cabe em um minuto por consulta.

Hoje: abra a caderneta na página do perímetro cefálico, ligue com lápis os pontos já marcados, em cinco minutos, e conte quantas linhas o traço atravessou.

★ RARO

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Entre 1997 e 2003, qual cidade brasileira entrou no Estudo Multicêntrico de Referência do Crescimento da OMS, o que gerou as curvas da caderneta?

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CFortaleza
DPernambuco

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