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100% escolheram Fumo de terceira mão. Aqui está.
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A nicotina que volta da varanda no seu colo
O resíduo fica na roupa, na pele e no cabelo de quem fumou fora, e o bebê recebe a dose no colo, no beijo e na mão que vai à boca.
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A camisa de fumar fica no gancho, fora do quarto
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43,3%. Foi a fatia de fumantes que, no levantamento de Jonathan Winickoff e colegas publicado na revista Pediatrics em 2009, concordou que o resíduo de tabaco deixado no ambiente faz mal à saúde de uma criança. Entre os não fumantes ouvidos no mesmo levantamento, a fatia chegou a 65,2%.
O nome desse resíduo nasceu naquele trabalho: fumo de terceira mão, tradução da expressão inglesa thirdhand smoke, que os autores cunharam para separar três situações que a conversa de casa embaralha. Fumo de primeira mão é o que o fumante traga. Fumo de segunda mão é a fumaça que os outros respiram enquanto o cigarro queima. Fumo de terceira mão é o que sobra depois que o cigarro se apaga.
O que sobra tem endereço físico. A nicotina e os outros compostos da fumaça grudam no tecido do sofá, na cortina, no carpete, na pintura da parede, no estofado do carro, e também no corpo de quem fumou: na pele das mãos, nos pelos do braço, no cabelo e principalmente na camisa.
É por aí que a varanda deixa de resolver o problema. O pai sai, fuma encostado na grade, apaga a guimba, volta, lava as mãos e pega o bebê no colo. A fumaça ficou do lado de fora, o resíduo entrou junto com ele, e o rosto do bebê encosta exatamente no ombro da camisa que absorveu a maior parte.
A criança pequena recebe uma dose desproporcional desse resíduo por três motivos mecânicos. Ela passa o dia em contato com superfícies, leva a mão à boca dezenas de vezes por hora, respira mais vezes por minuto que um adulto e tem uma superfície de pele grande para o tamanho do corpo. O que um adulto toca de passagem, o bebê ingere, inala e absorve.
A primeira seção mostra o que as medições encontraram na poeira das casas de fumantes que fumavam apenas fora de casa, o que acontece quimicamente com a nicotina depois de horas parada numa superfície e por que trocar de morador não limpa o apartamento.
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I O Fato da Semana
O que fica na casa depois que o cigarro apaga
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Jonathan Winickoff, pediatra do Massachusetts General Hospital, e colegas publicaram em 2009 na Pediatrics o trabalho que deu nome ao fenômeno e mediu o que as famílias acreditavam sobre ele. O achado que interessa ao pai não está na química: quem fumava acreditava muito menos no risco do resíduo do que quem não fumava, e essa crença aparecia depois na regra de casa. Domicílios em que o adulto reconhecia o risco tinham proibição total de fumar dentro de casa com frequência maior.
Cinco anos antes, Georg Matt e colegas já tinham medido o resíduo dentro de casas reais. O trabalho saiu na Tobacco Control em 2004, com famílias de bebês, e comparou três grupos: lares de não fumantes, lares de fumantes que fumavam apenas fora de casa e lares de fumantes que fumavam dentro. A poeira e as superfícies das casas do grupo do meio, o dos pais que só fumavam na varanda ou na rua, tinham quantidades de nicotina muito acima das casas de não fumantes.
O mesmo trabalho mediu cotinina na urina dos bebês, a substância que o corpo fabrica ao processar a nicotina e que serve de marcador de exposição. Os bebês dos pais que fumavam apenas fora de casa apresentaram níveis maiores que os bebês de lares sem fumante nenhum. A varanda reduziu a exposição, e não a zerou.
“O fumo de terceira mão é a contaminação residual de tabaco que permanece depois que o cigarro se apaga.” Jonathan P. Winickoff e colegas, Beliefs About the Health Effects of "Thirdhand" Smoke and Home Smoking Bans, Pediatrics, 2009 |
A química explica por que o tempo não resolve sozinho. Mohamad Sleiman e colegas publicaram na PNAS, revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, em 2010, um estudo mostrando que a nicotina depositada numa superfície reage com o ácido nitroso do ar interno, gás comum perto de fogão e de motor de carro, e forma nitrosaminas específicas do tabaco, compostos ligados ao câncer.
O resíduo também não sai com faxina comum, e existe medição disso em imóvel vazio. Georg Matt e colegas acompanharam apartamentos que trocaram de morador e publicaram o resultado na Tobacco Control em 2011: as unidades antes ocupadas por fumantes mantinham nicotina em superfícies, em poeira e até nos dedos das crianças das famílias não fumantes que se mudaram, mesmo depois de limpeza, pintura e semanas de imóvel desocupado entre uma família e outra.
Um estudo hospitalar mostrou o resíduo viajando no corpo do adulto. Thomas Northrup e colegas mediram, em trabalho publicado na Tobacco Control em 2016, nicotina nas mãos de acompanhantes fumantes e em superfícies de unidades de terapia intensiva neonatal, ambientes em que ninguém acende cigarro. O resíduo chegou lá carregado por pele, roupa e cabelo de quem entrou para visitar.
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II Guia Prático
A troca de vinte segundos antes do colo
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A rotina que corta a maior parte da dose cabe entre a última tragada e o primeiro colo, e depende de uma peça de roupa dedicada. Pendure um moletom ou uma camisa de manga comprida do lado de fora da porta, num gancho fixo. Essa peça vai com você para fumar e fica lá quando você volta. Ela absorve o que iria para o tecido que encosta no rosto do bebê.
A sequência que funciona, na ordem:
1. Vista a peça dedicada antes de sair para fumar, cobrindo os braços, e feche a porta atrás de você
2. Fume longe da janela e da entrada de ar, com o vento levando a fumaça para o lado oposto ao da casa
3. Deixe a peça no gancho externo ao voltar, sem entrar com ela nem por um minuto
4. Lave mãos, antebraços e rosto com sabonete, esfregando as unhas, que é onde a nicotina mais se segura
5. Espere o tempo de uma mamadeira pronta, uns dez minutos, antes de encostar o rosto do bebê no seu pescoço
O cabelo é a parte esquecida da rotina e merece uma decisão própria. Ele retém o resíduo com facilidade, fica na altura exata do rosto do bebê no colo e não sai com lavagem de mão. Boné usado para fumar e trocado ao entrar resolve boa parte, e cabelo curto lavado à noite resolve o resto.
O carro concentra o problema mais do que a casa, e a razão é o volume de ar. O estofado, o teto e o cinto seguram o resíduo num espaço pequeno e fechado, que depois recebe a cadeirinha. Janela aberta não resolve, e a limpeza de estofamento entra na lista antes de instalar a cadeirinha.
A regra precisa valer para visita, e é aí que a casa costuma falhar. Avô que fuma e chega para conhecer o neto, tio que sai para o corredor, diarista que fuma na área de serviço: todos entram no mesmo protocolo, dito em voz alta na porta. Uma frase pronta ajuda: aqui ninguém fuma dentro, e quem fumou lava as mãos antes do colo.
O quarto do bebê pede uma checagem de superfícies que ninguém faz. Cortina, tapete, poltrona de amamentação e bicho de pelúcia acumulam o que entra na roupa de quem senta ali todo dia. Lavagem quente dos tecidos e pano úmido nas superfícies duras, uma vez por semana, tiram parte do que se deposita.
Na nossa opinião: a varanda virou um acordo de casa que deixa todo mundo confortável e protege menos do que promete, e o pai que fuma escuta o alerta como acusação quando é logística. Ninguém aqui está pedindo que você largue o cigarro nesta semana. O pedido é menor e cabe hoje: separe a camisa, crie o gancho na porta e mude a ordem dos gestos entre o cigarro e o colo.
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