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A roupinha usada que apresenta o bebê ao cão

O cão da casa aprende o cheiro do bebê antes da alta, e a mordida em menor de 1 ano quase sempre vem do cachorro da própria família.

Pai mostra uma roupinha de bebê ao cachorro da casa

O cheiro que chega antes do bebê

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36 horas. Foi o tempo que a filha de um casal de Curitiba passou na maternidade antes da alta, e o pai voltou pra casa duas vezes nesse intervalo para cuidar do Thor, um vira-lata de 4 anos e 18 quilos.

Na primeira volta, ele levou só a mochila suja e um pote de comida vazio. Na segunda, a enfermeira da ala entregou um saquinho plástico fechado. Dentro estava o primeiro body da menina, usado por uma noite inteira, com cheiro de leite e de pele nova.

O pai tinha lido a dica num grupo de pais e achou exagero. Mesmo assim, chegou em casa, sentou no chão da sala e abriu o saquinho perto do focinho do Thor. O cão cheirou devagar, abanou o rabo baixo e deitou ao lado.

Ele repetiu o gesto à noite e na manhã seguinte. Deixou o body na caminha do cão por alguns minutos e depois guardou de volta. Na terceira vez, Thor nem levantou a cabeça. O cheiro já fazia parte da casa.

Na hora da alta, a mãe entrou primeiro, sozinha, de mãos vazias. Abraçou o cão, que pulava de saudade, e esperou ele acalmar. Só depois o pai entrou com a bebê no colo, enrolada na manta.

Thor cheirou o pé da menina, a dois palmos de distância, com o pai segurando a coleira frouxa. Não latiu nem pulou. Voltou para a caminha.

A cena parece final feliz, e a maior parte dos pais para por aqui. Os pediatras que atendem mordida de cachorro em bebê, porém, contam outra parte da história. O risco não mora no primeiro encontro, que todo mundo vigia. Mora nos meses seguintes, dentro de casa, com um cão que a família jura que nunca morderia ninguém.

A pergunta que o pai de Curitiba não fez na sala: de qual cachorro vem a mordida que leva um bebê ao pronto-socorro, e em que parte do corpo ela acerta. A resposta está nos registros dos hospitais infantis.

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I  O Fato da Semana

O cachorro que morde é o da família

O cão conhecido é o principal autor. Ilana Reisner, veterinária especialista em comportamento da Universidade da Pensilvânia, analisou com a equipe do Hospital Infantil da Filadélfia as mordidas em crianças atendidas no pronto-socorro e publicou o resultado em 2011, na revista Injury Prevention. Nas crianças pequenas, a maior parte das mordidas veio de um cão que a criança já conhecia, quase sempre o da própria casa.

O rosto e o pescoço ficam na altura da boca. Um bebê deitado no chão, no tapete de atividades ou no colo de alguém sentado no sofá está com a cabeça exatamente na altura do focinho de um cão médio. A criança mais velha leva a mordida na mão ou na perna. O bebê leva no rosto, no couro cabeludo e no pescoço.

O bebê não tem como recuar. Uma criança de 5 anos se afasta quando o cão rosna. Um bebê de 6 meses não lê o rosnado, não engatinha pra longe e às vezes estica a mão para o focinho. O cão interpreta o gesto como ameaça e avisa do único jeito que sobrou.

A mordida quase nunca vem do nada. Os comportamentalistas descrevem uma escada de sinais antes do dente. Primeiro o cão vira a cabeça, lambe o próprio focinho e boceja. Depois mostra o branco do olho (o olhar de baleia, quando a parte branca aparece de lado), endurece o corpo e para de abanar. Só então vem o rosnado e o bote.

Três situações concentram o risco. O cão perto da comida, do osso ou do brinquedo que ele guarda. O cão acordado de repente, quando o bebê rola ou cai em cima dele. E o cão com dor, como o animal mais velho com artrose (desgaste da cartilagem das juntas), que reage ao toque num quadril dolorido.

Raça não protege ninguém. O labrador da família, o poodle da avó e o vira-lata adotado aparecem nos registros. Porte muda a gravidade, porque o cão grande rasga mais. Já a chance de morder depende do contexto, do cansaço do animal e da vigilância do adulto.

O cão também sente a mudança da casa. Rotina nova, menos passeio, choro de madrugada, visitas toda hora e um cheiro desconhecido no sofá. Muitos cães ficam estressados nas primeiras semanas, e o estresse acumulado baixa a paciência do animal com o toque.

O primeiro encontro é o momento mais vigiado do ano. A mordida chega meses depois, num minuto em que ninguém olhava.

Na nossa opinião: o cão bonzinho pode morder num dia ruim. A segurança vem da regra da casa, nunca da fama do cachorro.

 
 

II  Guia Prático

O cheiro primeiro, o bebê depois

A preparação começa na gravidez. A Associação Americana de Medicina Veterinária, na orientação para famílias com cães e bebês, recomenda ajustar a rotina do animal semanas antes do parto: novo horário de passeio, novo lugar para dormir e as áreas proibidas já marcadas. Mudar tudo na semana da chegada liga o bebê às perdas do cão.

O cheiro entra antes do bebê. O olfato é o sentido principal do cachorro. Uma roupinha usada, levada da maternidade num saco fechado, deixa o cão conhecer o novo morador sem susto e sem disputa de espaço.

Os passos da semana da alta:

1. Peça a roupinha no primeiro dia. Um body ou uma manta usada por algumas horas, guardada num saco plástico fechado para segurar o cheiro

2. Apresente no chão, com calma. Sente perto do cão, deixe ele cheirar à vontade e recompense com petisco e carinho. Nunca esfregue o tecido no focinho

3. Repita duas ou três vezes por dia. Até o cão perder o interesse. O desinteresse é o sinal de que o cheiro virou parte da casa

4. Na chegada, a mãe entra primeiro. De mãos livres, para matar a saudade do cão. O bebê entra depois, no colo do pai, com o cão na guia segurada por outra pessoa

5. Cheirada curta, a distância. Deixe o cão cheirar o pé do bebê por poucos segundos e chame ele de volta com um petisco

O portão vale mais que o adestramento. Um portão de grade no corredor ou na porta do quarto separa o cão e o bebê nos minutos em que o adulto precisa ir ao banheiro, pegar a fralda ou atender a porta. O cão continua vendo e ouvindo a família, sem acesso ao berço.

A regra de ouro é nunca sozinhos. Bebê e cão não ficam no mesmo cômodo sem um adulto olhando, nem por um minuto, nem com o cão dormindo. O adulto que mexe no celular conta como ausente.

O bebê no chão pede o cão do outro lado do portão. Tapete de atividades, tempo de bruços e troca de fralda no chão colocam o rosto do bebê na altura do focinho. Nessas horas, o cão fica separado.

O cão precisa de um refúgio. Uma caminha num canto onde ninguém mexe, nem o bebê quando começar a engatinhar. Cão que tem para onde fugir se afasta, e o dente fica guardado.

Vantagens aparecem com o bebê. Petisco, passeio e carinho quando o bebê está por perto ensinam ao cão que o novo morador traz vantagem. Se o cão só ganha atenção quando o bebê dorme, ele aprende o contrário.

Sinais de que a casa precisa de ajuda profissional:

• Rosnado para o bebê ou para o carrinho. Pede um adestrador ou um veterinário comportamentalista na mesma semana

• Cão que fica parado olhando o berço. Fixação longa merece avaliação

• Cão que guarda comida com rosnado. Avise o profissional antes de o bebê engatinhar

 

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III  A Conta

Quanto custa uma mordida evitável

A conta mais cara é a do rosto. A mordida no rosto de um bebê costuma pedir sutura no pronto-socorro, às vezes com sedação ou anestesia geral, e acompanhamento com cirurgião plástico. A cicatriz pode precisar de nova intervenção anos depois, quando a criança cresce e a pele estica.

Toda mordida pede atendimento no mesmo dia. A boca do cão carrega bactérias que infeccionam a ferida com facilidade, e a pele do bebê é fina. Lave com água corrente e sabão por vários minutos, cubra com pano limpo e leve ao pronto-socorro, mesmo quando o furo parece pequeno.

No SUS, a mordida abre o protocolo da raiva. O Ministério da Saúde trata toda agressão por cão como caso de avaliação para a profilaxia antirrábica (as vacinas e o soro que impedem a raiva de se instalar). O médico decide pela vacina conforme o local da mordida e a situação do animal. A notificação é obrigatória e entra no sistema da vigilância.

O cão da casa fica em observação por 10 dias. O Ministério da Saúde orienta observar o cão ou o gato agressor por 10 dias. Se o animal segue saudável nesse prazo, ele não transmitia raiva no momento da mordida, e o esquema de vacina do bebê pode ser revisto. Leve a carteira de vacinação do cão ao pronto-socorro.

A prevenção cabe em três itens de casa. Um portão de grade para corredor ou porta, uma caminha num canto protegido e petiscos para os treinos com a roupinha. O preço varia por loja e por cidade, e não existe tabela única. O portão é o item que mais protege.

O adestrador ou o comportamentalista entra quando há sinal de alerta. Veterinários com formação em comportamento atendem em clínica ou em casa. Peça a avaliação antes da chegada do bebê se o cão já rosnou para criança, guarda comida ou nunca conviveu com bebê.

A vacina do cão também é proteção do bebê. A vacina antirrábica anual do cachorro é gratuita nas campanhas municipais em muitas cidades. Cão vacinado e com carteira em dia simplifica todo o atendimento depois de qualquer acidente.

O que ainda não se sabe. Os estudos sobre a roupinha levada da maternidade são escassos: a recomendação vem da prática dos comportamentalistas e do conhecimento sobre o olfato do cão, sem ensaio que meça quanto ela reduz mordidas. Já o portão e a vigilância têm a favor deles a lógica dos registros: sem acesso, não há mordida.

Hoje: escolha 1 cômodo da casa para o bebê e instale ou marque o lugar de 1 portão, em 15 minutos, antes de dormir. Se o bebê ainda não nasceu, deixe uma sacola plástica limpa na mala da maternidade, pronta para a roupinha.

“Onde o seu cão vai ficar quando o bebê estiver no tapete?”

 
 

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AO pai, já com a bebê no colo
BA mãe, sozinha e de mãos vazias
CO casal junto, lado a lado com a bebê
DThor, solto, pra cheirar a bebê primeiro

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