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Charutinho apertado: o quadril do bebê pede pernas dobradas
O enfaixamento com as pernas esticadas força o quadril em extensão, e a campanha japonesa dos anos 1970 derrubou a luxação para 0,2%.
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Charutinho frouxo, pernas dobradas e livres
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Zero vírgula dois por cento. Foi onde a luxação congênita do quadril parou no Japão depois da campanha nacional que pediu às famílias que parassem de esticar as pernas dos recém-nascidos dentro do enfaixamento, segundo o ortopedista Kazuo Ishida, na revista Clinical Orthopaedics and Related Research, em 1977.
Antes da campanha o país convivia com uma taxa muitas vezes maior, e a mudança veio de mães e avós trocando o jeito de embrulhar a criança para dormir, no quarto de casa, sem médico por perto.
O pai que enrola o bebê no charutinho às onze da noite não está pensando em ortopedia. Ele quer que o pano fique firme e que o sono dure mais de quarenta minutos. O charutinho, o embrulho apertado do corpo do bebê num pano de algodão, faz bem esse trabalho: braço preso dentro do tecido não acorda a criança com o próprio susto.
O problema começa abaixo da cintura. Quando o mesmo pano prende as pernas esticadas e coladas uma na outra, a cabeça do fêmur, a bolinha de osso que encaixa na bacia, fica empurrada para fora do lugar em que deveria assentar. O quadril do recém-nascido é mole, feito de osso novo e cartilagem, e ele se molda na posição em que passa a maior parte das horas.
Dentro do útero, o bebê passou semanas com as pernas dobradas e abertas para os lados, na posição de sapo. É essa dobra que mantém o fêmur apontado para o fundo da bacia enquanto o encaixe termina de endurecer, o que acontece nos primeiros meses fora.
Um charutinho que aperta o tronco e deixa a perna livre resolve o sono sem cobrar o quadril. Um charutinho que transforma o bebê num rolo reto cobra, e a conta chega meses depois, quando alguém percebe que uma perna parece mais curta ou que a criança manca ao começar a andar.
A primeira seção mostra o que a campanha japonesa mudou dentro das casas, o que acontece com o encaixe do quadril quando a perna fica esticada e quais exames apanham o problema enquanto ele ainda se resolve com um suspensório de tecido.
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I O Fato da Semana
A campanha japonesa que soltou as pernas do bebê
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O ortopedista japonês Kazuo Ishida publicou em 1977, na revista Clinical Orthopaedics and Related Research, o resultado da campanha de educação de famílias contra o costume de enfaixar o recém-nascido com as pernas retas. O texto relata queda da luxação típica do quadril, de vários casos por cem nascimentos para perto de 0,2% na população acompanhada.
O nome atual do problema é displasia do desenvolvimento do quadril, ou DDQ, o encaixe malformado entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, que é a cavidade da bacia onde o fêmur assenta. O termo antigo, luxação congênita, saiu de moda porque nem todo caso nasce pronto: parte dele se forma nos meses seguintes ao parto.
O acetábulo do recém-nascido tem borda de cartilagem e profundidade pequena. Ele ganha fundo pela pressão da cabeça do fêmur girando dentro dele. Fêmur bem centrado escava o acetábulo; fêmur apoiado na borda deixa a cavidade rasa e permite que o osso escorregue para fora.
Perna esticada e colada na outra puxa o fêmur para a borda. Essa combinação, extensão do quadril somada à aproximação das pernas, é a posição de maior risco para o encaixe em formação, e é exatamente a que o enfaixamento apertado produz.
“A prevenção da luxação típica do quadril depende de evitar a posição de extensão e adução dos membros inferiores no recém-nascido.” Kazuo Ishida, Prevention of the Development of the Typical Dislocation of the Hip, Clinical Orthopaedics and Related Research, 1977 |
O exame de rotina do quadril na maternidade tem dois nomes de gente. A manobra de Ortolani, descrita pelo pediatra italiano Marino Ortolani em 1937, procura o estalido do fêmur voltando ao lugar quando o examinador abre as pernas do bebê. A manobra de Barlow, descrita pelo ortopedista inglês Thomas Barlow em 1962, faz o caminho inverso e testa se o fêmur sai do encaixe sob leve pressão.
As duas manobras perdem sensibilidade depois das primeiras semanas, porque o quadril instável pode se acomodar em posição errada e parar de estalar. O achado que entra no lugar do estalido é a limitação da abertura da perna para o lado, chamada de abdução.
A imagem que fecha o diagnóstico no bebê pequeno é o ultrassom de quadril pelo método do austríaco Reinhard Graf, publicado em 1980. Ele mede ângulos da cobertura óssea e cartilaginosa e classifica o quadril em tipos, sem radiação, e funciona justamente porque o osso ainda é cartilagem. Depois dos seis meses, com o fêmur já calcificado, entra a radiografia de bacia.
O tratamento precoce cabe num suspensório de tecido. O aparelho de Pavlik, criado pelo ortopedista tcheco Arnold Pavlik e apresentado em artigo de 1957, segura as pernas dobradas e abertas e deixa a criança chutar dentro dessa faixa. Usado nos primeiros meses, resolve a maioria dos casos sem cirurgia, porque devolve ao quadril a posição que o charutinho apertado tinha tirado.
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II Guia Prático
O charutinho que deixa o quadril livre
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O pano continua liberado, o que muda é onde ele aperta. Firme no tronco e nos braços, frouxo do quadril para baixo, com espaço para a criança dobrar e abrir as pernas dentro do tecido. Esse é o enfaixamento que o International Hip Dysplasia Institute chama de seguro para o quadril nas suas orientações para famílias.
O charutinho que respeita o quadril, passo a passo:
1. Estenda o pano em losango e dobre o canto de cima, deixando a dobra na altura dos ombros do bebê, nunca acima do pescoço
2. Prenda um braço de cada vez com o pano puxado firme sobre o tronco, porque é o braço solto que acorda a criança com o reflexo de susto
3. Deixe a parte de baixo larga como uma saia, com o tecido sobrando dos quadris para os pés, sem puxar nem torcer nas pernas
4. Confira a posição de sapo antes de deitar: joelhos dobrados, coxas abertas para os lados e pés apontando levemente para fora
5. Encaixe a mão entre o peito e o pano e, se ela não entrar inteira, comece de novo com o embrulho mais folgado
6. Pare com o charutinho assim que a criança esboçar virar de lado, o que costuma acontecer perto dos dois meses, porque bebê enrolado que rola fica preso de bruços
O sling e o canguru seguem a mesma regra. O bebê carregado precisa ficar com os joelhos mais altos que o bumbum e as coxas apoiadas até a dobra do joelho, no formato de M. Carregador estreito, com as pernas penduradas retas, repete o defeito do enfaixamento apertado.
Quatro pontos da história do parto mudam o que você deve cobrar do pediatra: bebê que ficou sentado na barriga, chamado de apresentação pélvica; caso de quadril na família; pouco líquido amniótico na gestação; e menina primogênita. Com qualquer um deles, o ultrassom de quadril entre a sexta semana e o terceiro mês deixa de ser opcional.
Em casa, três sinais pedem consulta com o pediatra na mesma semana em que aparecem: uma perna que abre menos que a outra na hora da troca de fralda, pregas da coxa desenhadas em alturas diferentes nos dois lados e um estalo seco que se repete sempre no mesmo movimento. Uma prega a mais de um lado só, sozinha, costuma ser gordura, não quadril.
Na nossa opinião: o charutinho virou assunto de sim ou não, e a pergunta certa é outra, porque o pano no tronco e o pano nas pernas fazem trabalhos diferentes. Quem enrola o bebê todo dia controla a folga da parte de baixo, e essa folga custa dez segundos a mais.
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