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Em 2018, a FDA alertou contra o colar de âmbar

O âmbar não solta analgésico na pele do bebê, e a agência americana registrou um bebê estrangulado na soneca e outro engasgado.

Mão do pai segura um colar de contas de âmbar acima do berço vazio

O presente da avó, longe do pescoço do bebê

▼

37 graus. É a temperatura da pele no pescoço de um bebê saudável, e é nela que o vendedor do colar de âmbar diz que o produto trabalha.

A promessa vem impressa no cartão da embalagem. Aquecido pelo corpo, o âmbar do Báltico (resina fóssil de pinheiros extintos, endurecida ao longo de milhões de anos) soltaria ácido succínico, um composto orgânico que entraria pela pele e acalmaria a gengiva inflamada.

Às 15h de um domingo, a avó chega com o presente: um colar de contas cor de mel, com trava de rosca, embrulhado em papel de seda. Ela comprou na feira, a vizinha jurou que o neto parou de chorar em dois dias, e o bebê de sete meses baba no ombro da mãe enquanto morde o próprio punho.

O pai segura o colar e pesa a situação. Recusar o presente cria clima na sala. Aceitar significa deixar um cordão em volta do pescoço de quem ainda não sabe tirar nada do pescoço sozinho.

A dúvida dele tem duas partes. Primeiro: o colar funciona? Depois: se funcionar só um pouco, o risco compensa?

A resposta para a primeira parte é curta e decepcionante. Nenhum ensaio clínico mostrou que um colar de âmbar reduz a dor da dentição. Existem relatos de pais, e relatos de pais em dentição confundem o colar com o calendário dos dentes, que nascem, incomodam por alguns dias e param de incomodar sozinhos.

A segunda parte tem resposta ainda mais firme. Quem a deu foi a agência que regula produtos médicos nos Estados Unidos, depois de juntar relatos de bebês que se feriram com joias de dentição.

O pai não precisa escolher entre o colar e o choro. A gengiva tem alívio que cabe na geladeira e no dedo limpo, sem nada amarrado no pescoço.

Antes do alívio, vale conhecer os dois casos que a agência pôs no papel, com idade, objeto e hora do acidente.

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I  O Fato da Semana

O alerta da FDA sobre joias de dentição

O comunicado. Em dezembro de 2018, a FDA (Food and Drug Administration, a agência americana que regula remédios, alimentos e produtos médicos) publicou um alerta de segurança contra colares, pulseiras e tornozeleiras vendidos para aliviar a dor da dentição. A lista incluía contas de âmbar, madeira, mármore e silicone.

O caso da soneca. O alerta citava um menino de 18 meses estrangulado pelo próprio colar de âmbar durante a soneca. O colar que os pais compraram para acalmar a gengiva ficou no pescoço na hora em que o bebê dormia, e apertou.

O caso da conta. O segundo relato era de um bebê de sete meses que engasgou com as contas de madeira de uma pulseira de dentição, com os pais por perto, e precisou ser levado ao hospital. Uma conta solta do fio cabe inteira na garganta de um bebê.

Os outros riscos da lista. Além do estrangulamento e do engasgo, a FDA apontou ferida na boca, infecção e irritação da gengiva provocadas pelas contas, que o bebê morde e esfrega por horas.

Quem mais usa. A agência registrou que essas joias também são vendidas para crianças com autismo e outras necessidades especiais, como estímulo sensorial (objeto para morder e mexer, que acalma pelo toque). O alerta valeu para elas também.

A promessa sem prova. No comunicado, a FDA afirmou que não há evidência de que a joia alivie a dor da dentição. A Academia Americana de Pediatria segue na mesma linha e orienta os pais a não usar colar, pulseira ou tornozeleira de dentição em bebê nenhum.

O ácido no papel. O argumento comercial depende do ácido succínico. O âmbar do Báltico contém o composto, e ele existe no corpo humano, como parte do metabolismo das células. Nenhum estudo mostrou que ele sai da conta, atravessa a pele e chega à gengiva em dose capaz de aliviar dor.

O outro aviso do ano. O mesmo comunicado lembrou um alerta dado em maio de 2018 sobre um gel de gengiva vendido sem receita para bebês, com risco grave para o sangue. Também citou os comprimidos homeopáticos de dentição, que a agência já tinha investigado em 2016 por trazerem beladona (planta tóxica) em dose irregular.

Na nossa opinião: o colar junta dois defeitos raros de encontrar no mesmo objeto, promessa sem prova e risco com nome e idade. O presente da avó pode virar enfeite na estante, longe do berço.

 
 

II  Guia Prático

Gengiva aliviada sem nada no pescoço

O colar sai primeiro. Se o bebê já usa, tire hoje, inclusive o modelo de tornozelo ou de pulso usado por baixo da meia ou da manga. A FDA incluiu tornozeleira e pulseira no alerta, porque a conta solta engasga do mesmo jeito.

Converse com a avó. Mostre o alerta oficial no celular. Ela comprou por carinho, e o argumento que convence é o caso do menino de 18 meses. O colar pode ficar com ela, guardado como lembrança.

O alívio, passo a passo:

1. Dedo limpo na gengiva, com pressão firme e movimento circular por um ou dois minutos. A FDA e a Academia Americana de Pediatria indicam a massagem como primeira opção.

2. Mordedor de borracha firme, gelado na geladeira, nunca no congelador, porque o gelo duro machuca a gengiva.

3. Pano limpo, umedecido e gelado, para o bebê morder com o adulto segurando a ponta.

4. Fruta gelada amassada para quem já come, sempre com o bebê sentado e alguém olhando.

5. Remédio para dor só com dose do pediatra, calculada pelo peso do bebê. Ibuprofeno fica para depois dos 6 meses de vida.

6. Na hora de dormir, nada preso ao corpo: o bebê vai para o berço só com a roupa.

Os géis também saem da gaveta. Gel anestésico de gengiva vendido sem receita não serve para bebê. A FDA desaconselha o uso em menores de 2 anos, e a baba espalha o produto pela boca e pela garganta.

O homeopático também. Comprimido de dentição que derrete na boca entra na mesma lista de produtos que a agência pediu aos pais para evitar. O alívio que ele promete nunca foi demonstrado, e a dose dos ingredientes variou de lote para lote nas análises da FDA.

O pai assume o turno da gengiva. Ele mantém dois mordedores na geladeira, um gelando enquanto o outro está na boca do bebê, e faz a massagem antes da soneca. A mãe ganha a meia hora em que o bebê costuma reclamar.

Se a família insistir. Há quem proponha usar o colar só com o bebê acordado e alguém olhando. A FDA não abre essa exceção: a recomendação é não usar, nem por pouco tempo.

Se o choro não cede. Massagem, mordedor gelado e dose certa de remédio resolvem a maior parte dos dias ruins. Choro que atravessa a noite inteira, mesmo com tudo isto feito, pede uma consulta com o pediatra.

 

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III  A Conta

Quarenta contas e novecentas sonecas

O teste de Queensland. Em 2019, a farmacêutica Kathryn Steadman e colegas, na Universidade de Queensland, na Austrália, publicaram na BMC Complementary and Alternative Medicine uma análise de contas de colares de âmbar. Eles simularam o uso no pescoço, na temperatura da pele, e não encontraram liberação de ácido succínico capaz de chegar ao sangue do bebê.

A pele segura. Mesmo que algum ácido escapasse, a pele intacta do pescoço barra boa parte das moléculas. E o ácido que chegasse ao sangue não iria direto para a gengiva: o corpo trata o composto como mais um produto do metabolismo.

O tamanho do engasgo. A CPSC (Consumer Product Safety Commission, a agência americana de segurança de produtos) chama de peça pequena qualquer objeto que cabe num cilindro de 3,17 centímetros de diâmetro, medida que imita a garganta de uma criança de até 3 anos. Uma conta de colar de dentição mede menos de 1 centímetro.

As contas de um colar. Um colar de 33 centímetros, com contas de 8 milímetros, carrega perto de 40 delas. Cada uma passa no cilindro da CPSC com folga, e qualquer uma pode se soltar quando o fio arrebenta.

O nó entre as contas. Fabricantes dão nó entre uma conta e outra para que, se o fio romper, só uma se solte. O nó reduz o número de contas soltas, mas não reduz o risco do engasgo com a primeira, nem o do cordão que aperta.

A trava que deveria abrir. Alguns modelos usam trava que se abre quando puxada com força. O caso do menino de 18 meses mostra o limite da ideia: na soneca, ninguém puxa, e o colar torcido aperta sem tranco.

Novecentas sonecas. O primeiro dente costuma nascer perto dos 6 meses, e o último dente de leite, perto dos 3 anos. São 30 meses de dentição. Com uma soneca por dia, o colar passaria por mais de 900 sonecas no pescoço do bebê.

Risco raro, repetido. Um acidente por soneca é raro. Repetido 900 vezes, o risco raro cresce, e o ganho na balança fica em zero, porque o alívio nunca foi demonstrado.

Os números brasileiros. Não há levantamento público conhecido de acidentes com joias de dentição no Brasil. O engasgo costuma entrar no prontuário sem o nome do objeto, e por esse motivo o tamanho do problema por aqui continua desconhecido.

Hoje, até a hora da soneca: tire do bebê o colar, a pulseira ou a tornozeleira, uma peça por vez, e ponha dois mordedores de borracha na geladeira.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual gel de gengiva para bebê a FDA pediu para tirar das farmácias em maio de 2018?

 
 
Quiz da edição

No alerta de dezembro de 2018, qual foi o acidente registrado pela FDA com o bebê de 18 meses?

AEngasgou com uma conta de madeira solta do fio
BTeve reação alérgica ao ácido succínico do âmbar
CFicou estrangulado pelo próprio colar de âmbar durante a soneca
DSofreu queimadura na gengiva por bactéria acumulada no colar

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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