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Mão direita 97, pé 93: o teste do coraçãozinho pede repetição
A triagem por oximetria roda entre 24 e 48 horas de vida, com sensor na mão direita e num pé, e 3 pontos de folga já mandam medir outra vez.
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Sensor de oximetria no pé do recém-nascido
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Noventa e três por cento. Foi o número que apareceu na telinha quando o sensor estava enrolado no pé esquerdo do bebê, às três da tarde do segundo dia de vida, depois de a mesma enfermeira ter lido 97 na mão direita quatro minutos antes.
O pai estava ali, de pé ao lado do berço, com a mamadeira de apoio na mão e nenhuma ideia do que aqueles dois números queriam dizer. Perguntou se estava bom. A enfermeira respondeu que ia medir de novo dali a uma hora e saiu empurrando o carrinho do aparelho.
Uma hora parece pouco. Naquele quarto, com a mãe dormindo depois da cesárea, a hora passou sem ninguém olhar o relógio. A enfermeira voltou, mediu, anotou e disse que agora estava tudo certo.
O aparelho que ela usou é um oxímetro de pulso, um sensor de luz que atravessa a pele e estima quanto do sangue que passa ali está carregado de oxigênio. Ele não escuta sopro e não faz imagem. Ele compara o sangue que sai antes de um canal específico com o sangue que sai depois dele, e é dessa comparação que sai o alerta.
O nome do exame na papelada é triagem neonatal de cardiopatia congênita crítica por oximetria de pulso. No corredor da maternidade ele virou teste do coraçãozinho, cinco minutos de sensor em duas partes do corpo do bebê, feitos entre 24 e 48 horas de vida, antes de a família assinar a alta.
Quase todo pai sai da maternidade sem saber se o filho fez o teste e qual foi o resultado das duas medições. O exame que cabia numa conversa de dois minutos vira uma lembrança vaga de que alguém encostou um sensor no pé da criança.
A primeira seção mostra o que o sensor procura dentro do peito do bebê, por que a janela de 24 a 48 horas existe e quais são os números que decidem entre liberar, repetir ou chamar o cardiologista.
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I O Fato da Semana
O sensor que procura um canal que devia estar fechando
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O Ministério da Saúde incorporou a oximetria de pulso à triagem neonatal do SUS pela Portaria SAS/MS nº 20, de 10 de junho de 2014. O teste virou rotina antes da alta nas maternidades da rede pública, é gratuito, não depende de pedido médico e vale para todo recém-nascido com 35 semanas de gestação ou mais.
A Sociedade Brasileira de Pediatria já defendia o procedimento no documento científico Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita crítica: oximetria de pulso como ferramenta de triagem neonatal, de 2011. O texto descreve onde colocar o sensor, quando medir e o que fazer com cada resultado, e é dele que vem a rotina usada nos berçários brasileiros.
A medição tem dois pontos obrigatórios, e a escolha deles não é aleatória: o membro superior direito, chamado de ponto pré-ductal, e qualquer um dos pés, o ponto pós-ductal. Pré-ductal quer dizer antes do canal arterial; pós-ductal, depois dele.
O canal arterial, ou ducto arterioso, é um vaso curto que liga a artéria pulmonar à aorta enquanto o bebê está dentro do útero. Ele existe porque o pulmão do feto não respira ar. Depois do parto, com o pulmão funcionando, o canal começa a se fechar e costuma fechar em poucos dias.
Enquanto o canal está aberto, ele mascara defeitos graves do coração. Um bebê com cardiopatia crítica pode ficar rosado e mamar bem por dois dias, porque o canal aberto faz o serviço que o coração malformado não faz. Quando ele fecha, a criança descompensa rápido, às vezes já em casa.
“A triagem com oximetria de pulso deve ser realizada entre 24 e 48 horas de vida, antes da alta hospitalar.” Sociedade Brasileira de Pediatria, Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita crítica: oximetria de pulso como ferramenta de triagem neonatal, 2011 |
Os números da triagem cabem em duas linhas. Resultado normal: saturação de 95% ou mais nos dois pontos, com menos de 3 pontos percentuais separando a leitura da mão da leitura do pé. Resultado alterado: qualquer leitura abaixo de 95%, ou 3 pontos ou mais de distância entre os dois lugares.
Resultado alterado não significa coração doente, significa medir de novo. O protocolo manda repetir a oximetria depois de uma hora, com o bebê aquecido, quieto e com o sensor bem encaixado. Pé frio e criança chorando produzem leitura baixa sem doença por trás.
Se a segunda medição repetir o resultado alterado, o caminho deixa de ser triagem e vira investigação. A recomendação é ecocardiograma com doppler nas 24 horas seguintes, o exame de imagem que mostra as câmaras do coração e o sentido do fluxo de sangue dentro delas. Quem faz a leitura é o cardiologista pediátrico.
As cardiopatias congênitas aparecem em cerca de 1 a cada 100 nascidos vivos, e a fatia crítica, aquela que exige cirurgia ou cateterismo ainda nos primeiros meses, responde por perto de um quarto desses casos, segundo o mesmo documento da Sociedade Brasileira de Pediatria. O teste do coraçãozinho existe para achar essa fatia antes de a criança ir embora do hospital.
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II Guia Prático
O que perguntar antes de assinar a alta
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A pergunta que resolve tem doze palavras e você faz uma vez só. Procure a enfermagem do alojamento e pergunte: o teste do coraçãozinho já foi feito, quais foram os dois valores e onde estão anotados. Sem esses três dados, o exame não existe para você.
Peça os números, não o rótulo. Ouvir que deu normal serve para o momento; ler 97 na mão e 96 no pé serve para a consulta do pediatra na semana seguinte, quando alguém vai querer a leitura.
O protocolo do pai no dia do teste:
1. Confirme o horário de vida do bebê e cobre a medição dentro da janela de 24 a 48 horas, porque antes disso a transição da circulação ainda gera leitura instável
2. Peça os dois valores por escrito, identificados por lugar, mão direita e pé, na caderneta da criança ou no resumo de alta
3. Fotografe a anotação com data e horário legíveis e mande para você mesmo por mensagem, já que papel de maternidade se perde na primeira semana
4. Exija a repetição em uma hora se qualquer valor vier abaixo de 95% ou se 3 pontos separarem as duas leituras, e fique no quarto para ver a segunda medição acontecer
5. Não aceite alta com resultado alterado pendente de ecocardiograma; o agendamento sai por escrito, com dia e serviço, antes de a família sair do prédio
6. Aqueça o pé do bebê com a própria mão por um minuto antes da medição, porque extremidade fria derruba o sinal
O teste normal deixa uma zona cinzenta, e ela precisa ser dita com todas as letras. A oximetria pega bem os defeitos que dependem do canal arterial e deixa passar parte das coartações de aorta, o estreitamento do vaso principal que sai do coração, porque nelas a saturação pode ficar nos 96% nos dois pontos. Passar no teste reduz muito o risco, não o zera.
Por causa dessa zona cinzenta, o exame físico do pediatra continua valendo. Ele ausculta o peito e palpa os pulsos femorais nas duas virilhas. Pulso femoral fraco levanta a suspeita que a oximetria não levantou.
Em casa, quatro sinais pedem pronto-socorro no mesmo turno em que aparecem: respiração acelerada com afundamento das costelas, cansaço que interrompe a mamada antes dos cinco minutos, suor na testa durante a mamada e cor azulada ou acinzentada nos lábios e na língua. Mão e pé arroxeados com o resto do corpo rosado costumam ser frio, não coração.
Na nossa opinião: o pai tem um trabalho pequeno e específico nesse dia, que é sair do quarto, achar quem mediu e anotar dois números. Ninguém da equipe vai atrás dele para contar, e o resultado guardado na cabeça de outra pessoa não protege criança nenhuma.
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