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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

O endereço de casa escondido na foto do bebê

A foto do celular grava a coordenada de onde foi tirada, e o arquivo original mandado no grupo leva o endereço de casa junto.

Pai olha o celular no chão da sala com o bebê no tapete

A foto que leva o endereço junto

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4,9 metros. É a margem de erro do GPS (o sistema de posicionamento por satélite) de um celular comum a céu aberto, segundo o GPS.gov, site oficial do governo dos Estados Unidos. Dentro de casa, perto da janela, a marca piora um pouco, mas continua apontando para o mesmo quarteirão e, muitas vezes, para o mesmo portão.

Um pai tirou a foto num sábado de manhã. O filho tinha 4 meses e estava de bruços no tapete da sala, olhando para a câmera com a boca aberta. Luz boa, foco certo, a melhor foto da semana.

A avó pediu a foto com qualidade boa, porque a que chegava pelo grupo da família abria borrada no celular dela. O pai abriu o WhatsApp, tocou no clipe e escolheu a opção de documento. O arquivo saiu inteiro, sem compressão, com 4 megabytes.

O grupo tinha 37 pessoas. Tios, primos, a vizinha da avó e dois colegas de trabalho da mãe, que alguém adicionou numa festa de aniversário e ninguém lembrou de tirar.

Dois dias depois, um primo que trabalha com tecnologia mandou mensagem no privado. Ele tinha baixado a foto no computador, aberto as propriedades do arquivo e achado a latitude e a longitude. Colou os dois números no mapa. Apareceu a rua do pai, com o alfinete a 3 portas da casa dele.

O pai nunca tinha ligado nada. A câmera de muitos celulares pede a permissão de localização uma vez só, na primeira abertura, quando o dono está com pressa de tirar a primeira foto e toca em permitir sem ler. Depois, a gravação segue sozinha, foto após foto, sem aviso na tela.

Ele apagou a mensagem do grupo. Não havia como saber quantas pessoas já tinham salvado o arquivo, porque o WhatsApp não mostra quem baixou um documento.

A correção levou 10 segundos, num ajuste da câmera. A dúvida que sobrou é maior: de onde vem esse dado, quem consegue ler e quantas fotos já saíram de casa com ele. A primeira resposta vem de 2012, de um fugitivo famoso e de uma revista que publicou o esconderijo dele sem perceber.

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I  O Fato da Semana

O mapa que a revista publicou sem perceber

O protagonista é John McAfee. O criador do antivírus que leva o sobrenome dele estava escondido na Guatemala em dezembro de 2012. A polícia de Belize, país vizinho, queria interrogá-lo sobre um crime contra um homem que morava perto da casa dele.

A revista Vice foi atrás dele. Dois jornalistas encontraram McAfee e publicaram no site uma foto dele com um dos repórteres. A imagem tinha sido feita num iPhone 4S e subiu para a internet do jeito que saiu do aparelho.

O arquivo trazia a coordenada. Os metadados (dados gravados dentro do arquivo, que não aparecem na imagem) seguiam o padrão EXIF (sigla em inglês para formato intercambiável de arquivo de imagem). Leitores extraíram latitude e longitude em minutos e acharam um ponto no leste da Guatemala.

O desfecho veio em poucos dias. McAfee foi preso pela polícia guatemalteca por entrada ilegal no país e, depois de uma semana detido, foi mandado para os Estados Unidos. A cobertura da época não atribui a prisão só à foto, porque ele mesmo vinha dando entrevistas. A coordenada, porém, confirmou o lugar para qualquer um que abrisse o arquivo.

O arquivo guarda mais que o lugar. O padrão EXIF registra data, hora até o segundo, marca e modelo do celular, configuração da lente e, em muitos aparelhos, altitude e a direção para onde a câmera apontava. Somadas, essas linhas dizem onde o pai estava, a que horas e com qual aparelho.

Ler esses dados não exige programa especial. No Windows, basta clicar com o botão direito no arquivo, abrir Propriedades e depois Detalhes. No Mac, o aplicativo Pré-Visualização mostra a aba de GPS no inspetor. No próprio celular, a galeria abre um mapa quando o dono arrasta a foto para cima.

O caminho do envio decide se o dado viaja. O WhatsApp, quando a foto vai pelo modo normal de imagem, comprime o arquivo e descarta a localização no trajeto. O modo documento manda o arquivo original, com cada linha dos metadados intacta. O e-mail com anexo, o Google Drive com link aberto e o Telegram no modo arquivo fazem o mesmo.

Quem recebe também repassa. A avó que salva o documento no celular dela guarda o arquivo completo. Se ela reenviar para outro grupo, a coordenada vai junto, sem que ninguém na cadeia saiba.

Na nossa opinião: a foto do bebê dentro de casa merece o mesmo cuidado que a chave do portão, porque ela carrega o endereço em números.

 
 

II  Guia Prático

A chave de 10 segundos no celular

A solução é desligar a gravação na origem. Com a localização da câmera desligada, as fotos novas nascem sem coordenada, e o pai pode mandar o arquivo original sem pensar duas vezes. As fotos antigas continuam com o dado, e o fim desta seção mostra como limpá-las no envio.

No iPhone, o caminho tem 5 toques:

1. Abra Ajustes. O ícone cinza de engrenagem na tela inicial

2. Entre em Privacidade e Segurança. Fica na lista principal, abaixo de Bateria

3. Toque em Serviços de Localização. A lista de aplicativos aparece em ordem alfabética

4. Escolha Câmera. O aplicativo da Apple, com o ícone de máquina fotográfica

5. Marque Nunca. A partir desse toque, nenhuma foto nova grava a posição

No Android, a chave fica dentro da própria câmera. Abra o aplicativo da câmera e toque na engrenagem de configurações. Procure a opção Tags de local, nos aparelhos Samsung, ou Salvar local, nos Google Pixel. Desligue. Os nomes variam por marca, mas a chave sempre mora nesse menu.

Confira com uma foto de teste. Tire uma foto da parede, abra a galeria e arraste a imagem para cima. Se o mapa não aparecer, a gravação está desligada. Se aparecer, volte ao ajuste, porque algum passo não pegou.

Para as fotos antigas, limpe no momento de enviar. No iPhone, a tela de compartilhar tem um botão Opções no topo, logo abaixo da miniatura. Ali existe a chave Localização: desligue antes de mandar. No Google Fotos, a configuração Remover dados de localização geográfica apaga a posição das fotos compartilhadas por link.

Combine o envio com a família. Mande a foto pelo modo normal de imagem nos grupos grandes. Reserve o modo documento para a avó que quer imprimir, e só depois de desligar a localização daquela foto.

Olhe também o fundo da imagem. Fachada com número, placa do carro na garagem, uniforme com o nome da creche e janela com vista para um prédio conhecido entregam o endereço mesmo sem metadado. Um recorte simples no editor do celular resolve.

Sinais de que vale revisar os grupos:

• Gente que ninguém lembra quem adicionou. Pergunte ao administrador e peça a remoção

• Grupo aberto por link de convite. Qualquer pessoa com o link entra e baixa as fotos

• Foto do bebê no perfil público. A imagem de perfil fica visível para quem tem o seu número

 

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III  A Conta

Quantas fotos já saíram com coordenada

A soma é simples e assusta. Um pai que tira 5 fotos do filho por dia acumula 1.825 arquivos em um ano. Com a localização ligada, todos guardam o ponto exato onde foram feitos. Como a maioria das fotos de bebê nasce dentro de casa, a mesma coordenada se repete centenas de vezes no rolo da câmera.

O custo de desligar é perto de zero. São 10 segundos no ajuste e nenhum aplicativo extra. O pai perde só a organização automática das fotos por lugar no mapa da galeria. Quem quiser saber onde foi a viagem de férias pode digitar o nome da cidade na legenda.

A lei brasileira trata o dado da criança com peso maior. A Lei Geral de Proteção de Dados, a Lei 13.709 de 2018, dedica o artigo 14 aos dados de crianças e adolescentes e exige que o tratamento siga o melhor interesse deles. A lei cobra empresas e órgãos que coletam esses dados. O pai que posta a foto da família não responde por ela, mas a regra mostra quanto o legislador valoriza a informação sobre onde uma criança vive.

As plataformas grandes já limpam parte do caminho. Instagram e Facebook retiram os metadados das fotos publicadas, segundo testes repetidos por jornalistas de tecnologia ao longo dos anos. O risco mora nos canais que mandam o arquivo cru: documento no WhatsApp, e-mail, nuvem compartilhada e transferência por cabo para o computador de outra pessoa.

O que ainda não se sabe. Não existe levantamento público, no Brasil, de quantos casos de perseguição ou de visita indesejada começaram por uma coordenada esquecida numa foto de família. O caso de John McAfee virou exemplo porque envolvia um fugitivo famoso; os casos domésticos raramente chegam ao noticiário. Por essa ausência de número, a decisão segura se apoia no custo: desligar custa 10 segundos e quase nada de conforto.

A conferência anual leva 2 minutos. Atualização de sistema às vezes devolve permissões ao padrão ou pergunta de novo sobre a localização. Uma vez por ano, na data do aniversário do filho, abra o ajuste da câmera e confirme que a chave segue desligada.

Hoje: abra o ajuste da câmera, desligue 1 chave em 10 segundos e tire 1 foto de teste da parede. Arraste a foto para cima na galeria e confirme que o mapa sumiu antes de mandar a próxima foto do bebê para o grupo.

“Para quem você mandou a última foto do seu filho como documento?”

 
 
Quiz da edição

Qual revista publicou, em dezembro de 2012, a foto de John McAfee que acabou revelando o esconderijo dele na Guatemala pelos metadados EXIF?

AWired
BTechCrunch
CVice
DBuzzFeed

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