|
|
O feijão no nariz espera. A pilha, não.
Como saber se o objeto no nariz ou no ouvido aguenta a consulta do dia seguinte, e o sopro que resolve quase seis em cada dez casos em casa.
|
O feijão, a lanterna e a narina livre
|
| ▼ |
|
Domingo à tarde, o chão da sala tomado por um brinquedo de encaixe que veio com peça pequena demais. A criança de dois anos e meio está calada há um minuto e meio, e um minuto e meio de silêncio nessa idade nunca é boa notícia. Quando você chega, ela levanta o rosto rindo, com metade de um feijão cru desaparecida dentro da narina direita.
O reflexo da casa é sempre o mesmo. Alguém corre atrás da pinça de sobrancelha, alguém volta com um cotonete, alguém manda a criança fungar forte pra dentro. Os três gestos pioram o caso, e os três acontecem antes de alguém pensar em ligar pro pediatra.
Corpo estranho em nariz e ouvido é uma das cenas mais repetidas do plantão pediátrico, e a idade quase não varia: entre um e quatro anos, quando a mão já faz pinça fina e o julgamento ainda não chegou. Grão de feijão e de milho, miçanga, borracha de lápis, espuma, papel amassado, peça de brinquedo, bolinha de gel.
O detalhe que decide a noite é que essa lista não é uma lista só. Ela se parte em duas metades com pressas opostas, e as duas entram pela mesma narina com a mesma cara de nada.
Uma metade é chata e inofensiva: fica onde parou, não fere nada e aguenta com folga esperar a consulta do dia seguinte. A outra tem relógio próprio e começa a destruir tecido enquanto a casa ainda discute quem pega a chave do carro.
Saber em qual metade o objeto caiu muda tudo: muda se você dorme, se você dirige até o pronto-socorro hoje e o que você jamais deve encostar naquele buraco.
Nesta edição você recebe a régua inteira: como descobrir o que entrou e onde, o único movimento que dá pra tentar em casa com segurança, as ferramentas que transformam um caso simples em cirurgia, os sinais de emergência de horas e quanto custa cada caminho. O Fato da Semana começa pela anatomia, porque é ela que explica por que o objeto não sai sozinho.
Continue lendo ↓
|
|
I O Fato da Semana
A pilha corrói, o feijão só incha
|
|
O nariz de criança pequena é um beco sem saída. O objeto entra pela narina, para no assoalho da fossa nasal, logo abaixo do corneto inferior, num espaço que estreita pra trás. Ele não desce pra garganta sozinho. Fica.
O ouvido é ainda mais fechado. O conduto termina na membrana timpânica, e um estreitamento no meio do caminho segura o que passou dele. O objeto fica onde a mão da criança conseguiu empurrar.
Metade dos casos ninguém viu acontecer. A pista chega dias depois e ela é específica: secreção espessa saindo de uma narina só, com cheiro forte, às vezes com raia de sangue. Resfriado escorre dos dois lados. Corpo estranho escorre de um.
No ouvido a pista é outra. Criança puxando a orelha, ouvindo abafado de um lado só, ou secreção com cheiro num ouvido sem febre.
Grão vegetal incha. Feijão, milho, ervilha e amendoim absorvem a umidade da mucosa e crescem lá dentro, então o que entrou fácil às três da tarde já está apertado às nove da noite. A bolinha de gel faz o mesmo, em escala maior.
A pilha botão não é um objeto, é um circuito ligado. Encostada na mucosa úmida, ela fecha o próprio circuito e produz hidróxido no polo negativo, que é soda cáustica pura. A queimadura é química e acontece com a pilha inteira, sem vazamento nenhum.
O estrago começa na primeira hora. Relatos de perfuração do septo aparecem com poucas horas de pilha no lugar, e no ouvido a mesma corrente atravessa membrana timpânica e ossículos, com perda auditiva que pode não voltar.
Dois imãs são o segundo caso de relógio. Bolinha magnética ou peça de neodímio, uma em cada narina, se atraem através do septo, prensam o tecido do meio, cortam a circulação e perfuram por necrose de pressão em um ou dois dias. Um imã sozinho não perfura nada. O par perfura.
Objeto pontiagudo e caco de vidro fecham a lista curta de quem não espera. Todo o resto, miçanga, espuma, papel, plástico e borracha, é caso de consultório, não de madrugada.
O que tira o caso da fila e joga pra emergência imediata:
- Qualquer disco metálico brilhante: pilha botão de controle remoto, chave de carro, balança, brinquedo musical ou cartão de aniversário
- Dois imãs, ou um imã com qualquer peça de metal: eles se procuram através do septo e não param no meio do caminho
- Tosse, chiado, engasgo ou voz mudada: o objeto saiu do nariz e entrou na via aérea, e o número é 192
- Sangramento que não para ou dor forte no ouvido: trauma já instalado, com ou sem objeto ainda no lugar
- Grão vegetal com mais de um dia: ele inchou, e a retirada simples virou procedimento
|
|
II Guia Prático
Um sopro curto, a narina livre tapada
|
|
O primeiro passo é olhar pra criança, não pro buraco. Ela respira sem esforço? Chora com a voz de sempre? Tosse, chiado ou engasgo mudam o endereço do problema: não é mais nariz, é via aérea, e via aérea é 192 na hora.
O segundo passo é descobrir o que entrou. Pergunte baixo e sem sermão, olhe o chão, conte as peças do brinquedo e confira se falta pilha em algum controle. A resposta define se o caso espera a manhã.
O terceiro passo é olhar, só olhar. Empurre a ponta do nariz pra cima com o polegar e use a lanterna do celular. A inspeção termina aí.
A régua mais importante da edição cabe numa frase: nada entra atrás do objeto. Pinça de sobrancelha, cotonete, grampo de cabelo, palito e dedo de adulto empurram o corpo estranho pra trás, onde ele deixa de ser problema de nariz e vira risco de via aérea.
O instrumento caseiro ainda cobra um segundo preço: ele machuca uma mucosa que sangra fácil e enche de sangue o campo que o médico precisa enxergar.
Também não mande fungar, não deite a criança de costas e não jogue soro no nariz. Fungar puxa o objeto pra trás, a posição deitada coloca a gravidade contra você, e água em grão vegetal acelera o inchaço.
O único movimento seguro é o sopro, e ele funciona. A revisão sistemática de Cook, Burton e Glasziou, publicada no CMAJ em 2012, reuniu os relatos disponíveis da técnica e encontrou quase 60% de sucesso, sem nenhum efeito adverso registrado.
Como fazer o sopro, passo a passo:
- Sente a criança no colo, de frente pra você, e avise em voz baixa que vai dar um beijo com sopro
- Tape com o dedo a narina livre, a que não tem nada dentro, pressionando de leve contra o septo
- Sele a boca dela com a sua boca inteira, como num beijo, sem folga nos cantos
- Dê um sopro curto e firme, um só, com força de assoprar vela; sopro longo não aumenta a pressão
- Repita no máximo três vezes. Não saiu nas três, pare, e o caso vira consultório
Criança maior resolve com a mesma física: quem já sabe assoar o nariz assoa uma vez, com a narina livre tapada.
No ouvido o número de manobras caseiras é zero. Incline a cabeça com o ouvido virado pra baixo e sacuda de leve. Não irrigue: se for pilha, a água acelera a corrente; se for grão, ele incha; se a membrana estiver perfurada, você leva sujeira pra dentro.
A única exceção do ouvido é o inseto vivo, que faz barulho e dói. Azeite morno mata o bicho e alivia na hora, desde que não haja tubinho de ventilação nem perfuração. A retirada continua no serviço.
O script pra não entrar em pânico é curto, e ele é seu, não dela. Criança copia a respiração do adulto mais próximo, e criança em pânico funga. Fale devagar e use a frase pronta: respira pela boca, o pai já resolve.
Na nossa opinião: descobrir o que entrou, olhar sem tocar, tentar o sopro três vezes e parar resolve a maioria das noites. Pinça de sobrancelha e cotonete são os instrumentos que transformam consultório em centro cirúrgico.
|
|