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A crença tinha séculos. Em vários países, parteiras e avós recomendavam cerveja ou vinho às mães para aumentar o leite e acalmar o bebê. No Brasil, a versão mais conhecida é a malzbier, a cerveja preta adoçada, servida às puérperas (mulheres nas semanas seguintes ao parto) como reforço.
Julie Mennella resolveu medir. A psicobióloga Julie Mennella, do Monell Chemical Senses Center (centro de pesquisa sobre olfato e paladar), na Filadélfia, publicou em 1991 no New England Journal of Medicine, com Gary Beauchamp, um experimento com mães que amamentavam e os bebês delas.
O desenho era simples. Em dias diferentes, cada mãe bebeu suco de laranja puro ou suco de laranja com uma pequena dose de álcool. A equipe colheu amostras de leite e acompanhou as mamadas seguintes, pesando o bebê antes e depois de mamar.
O leite mudou de cheiro. Avaliadores treinados sentiram o odor do álcool no leite. O cheiro ficava mais forte na primeira hora depois da bebida e enfraquecia em seguida, acompanhando o nível no sangue da mãe.
Os bebês mamaram menos. Nas mamadas logo depois da dose, os bebês sugaram com a mesma frequência, mas tiraram menos leite do peito. A cerveja da avó, na balança, fazia o contrário do prometido.
A explicação veio depois. Em estudos seguintes, Mennella mostrou que o álcool reduz a liberação de ocitocina (o hormônio que faz o leite descer quando o bebê suga). O peito produz, mas entrega menos na hora da mamada.
O sono também piorou. Em 1998, Mennella e Pamela Gerrish publicaram na revista Pediatrics que bebês alimentados com leite contendo álcool dormiram menos nas horas seguintes, com menos tempo de sono ativo (a fase com movimento dos olhos, importante para o desenvolvimento do cérebro).
O caminho até o leite. O álcool é uma molécula pequena, que se mistura à água e atravessa as membranas das células sem precisar de transporte. Por esse motivo, ele entra e sai do leite livremente, e o teor no leite sobe e desce junto com o do sangue.
O pico chega rápido. Com o estômago vazio, o álcool no leite alcança o ponto mais alto ainda na primeira hora, como mostraram as amostras de Mennella. Quando a mãe come junto, a absorção fica mais lenta e o pico sai mais baixo.
O peito não guarda estoque. O leite parado na mama também perde álcool, porque troca com o sangue o tempo todo. Leite tirado depois que o sangue ficou limpo sai limpo, mesmo que ninguém tenha esvaziado o peito durante a festa.
Na nossa opinião: a cerveja preta para dar leite saiu do costume e não resistiu à balança. O que a pesquisa deixou foi uma regra prática: o bebê mama melhor e dorme melhor quando o leite chega sem álcool, e o leite fica sem álcool quando o sangue fica.
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