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O teste do olhinho volta em cada consulta do bebê

A pupila acende em vermelho em segundos e acusa catarata, glaucoma e tumor na retina. O normal da maternidade vale só para aquele dia.

Pediatra examina com luz os olhos do bebê no colo do pai

A luz do exame na sala escura

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50 centímetros, numa sala de luz apagada, no segundo dia de vida. É a distância de onde o pediatra aponta o oftalmoscópio (a lanterna pequena com lente) para os dois olhos do seu filho, ainda na maternidade.

O exame dura poucos segundos. O médico olha pelo aparelho e procura um brilho: a pupila precisa acender em vermelho alaranjado, igual nos dois lados, como nos olhos de quem sai numa foto com flash.

O vermelho é o fundo do olho, a retina cheia de vasos, devolvendo a luz. Quando ele aparece limpo, a luz atravessou a córnea, o cristalino e o gel de dentro do olho sem tropeçar em nada.

Quando a luz tropeça, o brilho muda. Pode sair opaco, mais fraco num olho, com uma mancha escura ou branco. Cada uma dessas variações leva o bebê ao oftalmologista, o médico dos olhos, nos dias seguintes.

A maior parte dos pais guarda o teste do pezinho na memória e esquece o do olhinho. Ele costuma aparecer numa linha só do resumo de alta, com a palavra normal, e a família vai para casa com o assunto dado como resolvido.

Resolvido ele não está. O resultado da maternidade diz como estava o olho naquele dia. Uma catarata pode se formar semanas depois, e um tumor na retina pode começar a crescer meses depois, num olho até então limpo.

Por esse motivo o exame precisa voltar em cada consulta de rotina do primeiro ano, com o aparelho de sempre e a sala escura. Não custa nada à família, não dói e, na maior parte das consultas, dispensa colírio.

Muitos consultórios pulam o passo quando a agenda aperta ou o bebê chora no colo. O pai pode pedir, e o pedido toma meio minuto da consulta.

A história do exame começa num consultório da Suíça, em 1962, onde um oftalmologista percebeu como o brilho vermelho mostra o que o bebê ainda não sabe contar.

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I  O Fato da Semana

O brilho descrito na Basileia

O criador. Em 1962, o oftalmologista suíço Roland Brückner, da Basileia, descreveu o método de iluminar os dois olhos juntos e comparar o reflexo de um com o do outro. Fora do Brasil, o exame ainda leva o sobrenome dele: teste de Brückner.

O nome daqui. No Brasil, ele virou teste do reflexo vermelho nos documentos médicos e teste do olhinho na fala das famílias. É o mesmo gesto do médico, com a luz apagada e o aparelho a meio metro do rosto.

A catarata congênita. O primeiro alvo é a catarata congênita (o cristalino, a lente natural do olho, nasce ou fica opaco). A luz não passa, o reflexo some ou sai manchado, e o cérebro do bebê deixa de receber imagem nítida justamente nos meses em que aprende a enxergar.

O glaucoma congênito. O segundo alvo é o glaucoma congênito (pressão alta dentro do olho). A córnea, a janela transparente da frente, fica turva, e o reflexo perde força. Os sinais em casa são lacrimejamento constante, incômodo forte com a luz e um olho maior do que o outro.

O retinoblastoma. O terceiro alvo é o retinoblastoma (câncer da retina, o tecido do fundo do olho). O tumor é branco e, quando cresce, devolve a luz em branco. Os médicos chamam o sinal de leucocoria (a pupila branca).

Os achados de quebra. O mesmo exame pega diferença grande de grau entre os dois olhos e o estrabismo (o olho desviado), porque o reflexo sai assimétrico. Não mede o grau e não substitui a consulta com o oftalmologista quando aparece alguma alteração.

A recomendação americana. Em 2008, a Academia Americana de Pediatria publicou na revista Pediatrics a declaração oficial sobre o exame, assinada junto com associações de oftalmologia. A orientação: fazer no berçário e repetir em todas as consultas de rotina da criança.

A recomendação brasileira. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta o exame antes da alta da maternidade e de novo nas consultas de rotina dos primeiros anos. A Caderneta da Criança, do Ministério da Saúde, traz o campo para o registro.

Academia Americana de Pediatria, Pediatrics, 2008, na declaração Red Reflex Examination in Neonates, Infants, and Children: o exame do reflexo vermelho deve fazer parte da avaliação do recém-nascido e de todas as consultas de rotina seguintes.

Na nossa opinião: o teste do olhinho é um exame de rotina, como pesar e medir, e não uma prova feita uma vez na maternidade.

 
 

II  Guia Prático

O olhinho em cada consulta

Antes da consulta. Leve a Caderneta da Criança. Ela é o lugar onde o resultado fica escrito, e onde o próximo pediatra confere se o exame foi feito.

Os passos na sala:

1. Pergunte no começo da consulta se o reflexo vermelho entra no exame de hoje. O pedido no início evita a pressa do final.

2. Apague a luz quando o médico pedir, ou ofereça para apagar. O exame com a sala clara perde precisão.

3. Segure o bebê sentado no colo, de frente para o médico, com a cabeça apoiada no seu peito.

4. Peça a comparação dos dois olhos juntos. O valor do exame está em ver se os dois reflexos têm cor e força iguais.

5. Anote na Caderneta a data e a palavra do médico: normal, duvidoso ou alterado.

6. Saia com o encaminhamento por escrito se o resultado for duvidoso ou alterado, com a clínica indicada e o prazo.

Em casa, a foto com flash. O celular serve de triagem caseira. Desligue a função de correção de olho vermelho, apague a luz do quarto e tire três fotos com flash, a um metro do bebê, olhando para a câmera.

Como ler a foto. O normal é o vermelho nos dois olhos. Pupila branca, amarelada ou muito diferente de um olho para o outro, repetida nas três fotos, pede consulta. Uma foto isolada com brilho branco pode vir do ângulo do flash.

Quando a foto não vale. Bebê muito novo fecha os olhos com o flash, e a foto de lado mostra só um reflexo. Repita com o bebê acordado, de frente, em outro dia, antes de concluir qualquer resultado pela tela do celular.

Os outros sinais. Olho que desvia de forma constante depois dos quatro meses, bebê de três meses que não acompanha o seu rosto, lacrimejamento sem choro, incômodo forte com a luz, córnea esbranquiçada ou um olho maior do que o outro também pedem oftalmologista.

O prazo. Pupila branca, na foto ou no consultório, pede oftalmologista na mesma semana. Não espere a próxima consulta de rotina, e não aceite a explicação de reflexo da câmera sem o exame do médico.

Na nossa opinião: o pedido do pai custa meio minuto, e a anotação na Caderneta garante que o próximo médico saiba do exame.

 

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III  A Conta

Sete consultas, sete chances

A conta do calendário. A Caderneta da Criança, do Ministério da Saúde, marca as consultas de rotina do primeiro ano: primeira semana, um mês, dois, quatro, seis, nove e doze meses. São 7 encontros, e cada um é uma chance de repetir o exame.

A conta do tempo. Se o exame leva meio minuto, as 7 consultas somam três minutos e meio no ano inteiro. É menos do que a fila da farmácia para comprar o antitérmico.

A conta do custo. O exame não pede material além do oftalmoscópio, já presente no consultório. No SUS e no plano de saúde, ele entra na própria consulta, sem cobrança separada.

A conta da janela. Na catarata densa dos dois olhos, a cirurgia costuma ser marcada nas primeiras semanas de vida. O cérebro aprende a enxergar nos primeiros meses, e um olho sem imagem nítida nessa fase pode ficar com a ambliopia (o olho preguiçoso), visão fraca mesmo depois de corrigida a lente.

A conta da sobrevida. Em 2020, o Global Retinoblastoma Study Group publicou na revista JAMA Oncology a análise de 4.351 crianças com retinoblastoma, de 153 países. A sobrevida em três anos, medida pelo mesmo grupo em 2022 na revista The Lancet Global Health, chegou a 99,5% nos países de renda alta e a 57,3% nos de renda baixa. O estudo de 2020 apontou a leucocoria como o sinal mais comum na chegada ao médico.

A conta do olho. No retinoblastoma, o diagnóstico cedo muda o tratamento. Tumor pequeno costuma ser tratado com laser, frio ou quimioterapia dentro do olho. Tumor grande pode exigir a retirada do olho para salvar a criança.

A conta da idade. O retinoblastoma aparece quase sempre antes dos cinco anos, e boa parte dos casos começa no primeiro e no segundo ano. É a faixa exata das consultas de rotina, quando o pai ainda leva o filho ao pediatra com frequência.

O que fica sem resposta. A família brasileira não encontra um painel público nacional com a cobertura do teste do olhinho por consulta. Sem esse número, ninguém consegue dizer quantos bebês fazem o exame só na maternidade.

Na nossa opinião: três minutos e meio no ano, divididos em 7 consultas, compram a chance de achar o problema dentro da janela em que ele tem tratamento.

Na última consulta, o pediatra apagou a luz para olhar os olhos do seu filho?

Hoje: abra a Caderneta da Criança, uma página só, a da saúde ocular, e confira a data do último teste do olhinho; se o campo estiver vazio, escreva o pedido na capa para a próxima consulta.

 
 
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Em que país foi descrito, em 1962, o método original de comparar o reflexo vermelho dos dois olhos do bebê?

AAlemanha
BSuíça
CEstados Unidos
DBrasil

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