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Esta pauta venceu a urna de 30/09.
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O vidro de café que o pai ferve 15 minutos
A maior rede de bancos de leite humano do mundo é brasileira. O frasco doado passa pela panela, pela caneta e pelo carro do pai.
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O vidro de doação saindo da fervura
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15 minutos de fervura, contados a partir da primeira bolha. É o tempo que um vidro vazio de café solúvel passa na panela pra virar frasco de doação num banco de leite humano.
Quem segura a pinça, na maioria das casas que doam, é o pai. A mãe está ocupada com a parte que só ela faz: tirar o leite que sobra depois da mamada do próprio filho. O resto do trabalho cabe em duas mãos livres e numa cozinha comum.
Ele tira o rótulo de papel do vidro, arranca o papelão de dentro da tampa e lava as duas peças com detergente. Coloca tudo numa panela, cobre com água e espera ferver. Quando a primeira bolha sobe, começa a contar.
Depois escorre o vidro de boca pra baixo sobre um pano limpo e espera secar sozinho, sem enxugar. Com a caneta, escreve no rótulo o nome da mãe e a data da primeira coleta. O frasco vai pro congelador e recebe leite nos dias seguintes, sempre por cima do que já congelou.
Quando o vidro enche, o pai coloca o frasco numa caixa de isopor com gelo reciclável e leva até o posto de coleta. Em muitas cidades, o próprio banco manda buscar em casa. Em outras, o carro da família faz a entrega.
O destino desse vidro é uma UTI neonatal (a unidade de terapia intensiva dos recém-nascidos). Lá, um bebê nascido antes do tempo recebe, por sonda ou copinho, leite de uma mãe que ele nunca vai conhecer.
O caminho entre a panela da sua cozinha e a sonda do prematuro passa pela maior rede de bancos de leite do planeta, montada no Brasil em décadas de trabalho público.
A primeira das três partes conta como essa rede nasceu e o que acontece com o frasco depois que ele sai das mãos do pai.
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I O Fato da Semana
A rede que começou num hospital do Rio
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A Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, a rBLH, é coordenada pela Fiocruz e soma mais de 200 bancos de leite pelo país, segundo a própria Fiocruz em 2024. Contados os postos de coleta, que só recebem e guardam os frascos, o número de endereços passa de 400.
O primeiro banco brasileiro abriu em 1943, no Rio de Janeiro. Funcionava no Instituto Nacional de Puericultura, hoje Instituto Fernandes Figueira, que segue sendo a sede técnica da rede dentro da Fiocruz.
Por décadas, o leite doado foi vendido. Até os anos 1980, havia bancos que pagavam a mães pelo leite, e o controle de qualidade variava de hospital pra hospital. O modelo mudou quando a amamentação virou política de saúde pública no país.
O pesquisador João Aprígio Guerra de Almeida, da Fiocruz, desenhou o método que a rede usa até hoje. Ele trocou equipamentos importados e caros por processos simples e baratos, que cabem num hospital do interior, e padronizou cada etapa, da coleta ao envio pra UTI.
A rede ganhou nome e coordenação nacional em 1998, numa parceria entre o Ministério da Saúde e a Fiocruz. Em 2001, a Organização Mundial da Saúde deu ao projeto o Prêmio Sasakawa de Saúde, e o modelo foi levado a países da América Latina, da África e da Europa.
Dentro do banco, o frasco do pai passa por um teste de acidez. A técnica chama-se acidez Dornic (a medida, em graus, do ácido que as bactérias produzem no leite). Leite com acidez alta é descartado, porque sinal de bactéria no frasco significa risco pro prematuro.
O leite aprovado é pasteurizado a 62,5 graus por 30 minutos. O processo mata os micro-organismos e preserva a maior parte dos anticorpos. Uma amostra de cada lote vai pra cultura no laboratório antes da liberação.
Quem recebe o leite é escolhido pela equipe médica da UTI. A prioridade vai pros prematuros, pros bebês de baixo peso e pros recém-nascidos internados cuja mãe ainda não produz leite suficiente. O frasco não tem endereço certo quando sai da casa do doador: o banco junta, testa e distribui pela necessidade de cada leito.
Na nossa opinião: a rede brasileira funciona porque cada etapa difícil fica no hospital, e a etapa que fica em casa cabe numa panela.
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II Guia Prático
Da panela ao posto, em seis passos
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A doação começa com uma ligação, antes do primeiro vidro. O pai liga pro banco de leite mais próximo ou pro Disque Saúde, no número 136, e pede o cadastro da mãe como doadora.
O banco faz poucas perguntas. Quer saber se a mãe está saudável, se o filho dela está bem alimentado e se ela usa algum remédio. Fumo e alguns medicamentos impedem a doação, e a equipe confere cada caso pelo telefone ou na primeira visita.
Os passos do frasco, do armário ao posto:
1. Escolha o vidro. Vale vidro de café solúvel, de maionese ou de conserva, desde que tenha tampa plástica de rosca. Tampa de metal enferruja e não serve
2. Limpe as duas peças. Tire o rótulo de papel, arranque o papelão de dentro da tampa e lave com detergente e esponja
3. Ferva por 15 minutos. Vidro e tampa na panela, cobertos de água, com o tempo contado a partir da primeira bolha
4. Seque sem pano. Escorra de boca pra baixo sobre um pano limpo e deixe secar no ar, sem enxugar por dentro
5. Anote nome e data. Escreva no rótulo o nome da mãe e a data da primeira coleta, que é a informação que o banco usa pra aceitar o frasco
6. Leve congelado. Caixa de isopor, gelo reciclável em volta do vidro e trajeto direto até o posto, sem paradas no caminho
O pai também prepara o lugar da coleta. O banco pede cabelo preso, uma fralda ou máscara cobrindo boca e nariz e mãos lavadas até o cotovelo antes de cada ordenha (a retirada do leite com a mão ou bomba). O pai separa o pano, a fralda e o vidro já fervido sobre a pia.
Frasco que descongela no caminho volta pra casa. Leite que derreteu e congelou de novo perde a segurança, e o banco recusa. Por esse motivo a caixa de isopor vai fechada e o trajeto não inclui supermercado.
Em muitas capitais, o leite vem buscar o pai. Bancos de várias cidades têm carro próprio pra coleta em casa, e em algumas o Corpo de Bombeiros faz a rota. Quem mora longe de qualquer posto pergunta no cadastro qual é a opção do município.
O banco devolve vidros. Muitos postos trocam o frasco cheio por um vidro já esterilizado, o que poupa uma fervura na semana seguinte.
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