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1 leitor escolheu Ingurgitamento mamário neonatal. Sai em 26/09.
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O volante do pai acordado há 18 horas
Depois de 17 a 19 horas sem dormir, o reflexo cai ao nível de quem bebeu. Como decidir quem dirige na madrugada com o bebê.
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A chave do carro às 0h30
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18 horas e meia sem dormir. É a conta do pai que levantou às 6h, trabalhou o dia inteiro, deu o último banho às 20h e, às 0h30, pega a chave do carro porque o bebê de cinco meses acordou com 39 graus de febre.
A cena se repete em qualquer casa com criança pequena. A mãe vai no banco de trás, ao lado da cadeirinha, a bolsa do bebê vai no chão do carona, e o pai assume o volante porque se sente acordado. A febre dá essa impressão: o coração acelera, o olho arregala, e o corpo parece pronto para vinte quilômetros até o pronto-atendimento.
O corpo engana. As pesquisadoras australianas Ann Williamson e Anne-Marie Feyer publicaram em 2000 a comparação que pesa sobre essa madrugada: entre 17 e 19 horas sem sono, o desempenho de adultos saudáveis caiu ao nível de quem tem 0,05% de álcool no sangue. No Brasil, a Lei Seca (Lei 12.760, de 2012) pune qualquer quantidade de álcool detectada no motorista com multa gravíssima e suspensão da carteira por 12 meses.
O pai de bebê pequeno carrega um agravante. Quem dorme em blocos de duas ou três horas há semanas acumula dívida de sono (as horas que faltaram nas noites anteriores e que o cérebro cobra depois), e essa dívida soma com as horas acordado naquela noite. O cansaço das 0h30 começou bem antes das 6h daquela manhã.
A saída quase nunca é deixar a criança sem atendimento. Febre alta num bebê de cinco meses pede avaliação médica, e a família tem transporte que não passa pelo volante do pai exausto: táxi, carro de aplicativo, o SAMU pelo 192 quando há sinal de gravidade, ou o adulto mais descansado da casa.
A primeira seção mostra quem criou a comparação entre sono e álcool, o que Williamson e Feyer mediram de fato e por que o motorista cansado não percebe o próprio apagão.
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I O Fato da Semana
A pesquisa que mediu o sono em doses de álcool
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A comparação nasceu três anos antes, com os pesquisadores Drew Dawson e Kathryn Reid, da Universidade do Sul da Austrália. Em 1997, na revista Nature, eles publicaram Fatigue, alcohol and performance impairment (fadiga, álcool e prejuízo de desempenho). Os voluntários fizeram uma tarefa de coordenação entre olho e mão em duas ocasiões: numa, passaram a noite sem dormir; na outra, beberam doses de álcool a cada meia hora.
O achado de Dawson e Reid virou referência nos órgãos de trânsito de vários países. Depois de 17 horas acordados, os voluntários tinham desempenho parecido com o de quem estava com 0,05% de álcool no sangue. Depois de 24 horas, o desempenho se aproximou de 0,10%, o dobro.
Williamson e Feyer, da Universidade de Nova Gales do Sul, ampliaram o teste em 2000. O estudo delas saiu na revista Occupational and Environmental Medicine com o título Moderate sleep deprivation produces impairments in cognitive and motor performance equivalent to legally prescribed levels of alcohol intoxication (a privação moderada de sono causa prejuízos equivalentes aos níveis de embriaguez fixados em lei). Os 39 voluntários, a maioria trabalhadores do transporte, fizeram uma bateria de provas: tempo de reação, atenção, memória e coordenação.
O detalhe que interessa ao pai está na variação entre as provas. Em algumas, a queda apareceu cedo; em outras, depois de 17 a 19 horas acordados o desempenho ficou igual ou pior que o de 0,05%. Com mais horas sem sono, alguns resultados chegaram ao nível de 0,1%. O estudo mediu adultos em laboratório, sem bebê chorando no banco de trás.
O cérebro cansado falha de um jeito específico. Ele desliga por poucos segundos, o microssono (um cochilo involuntário, às vezes de olhos abertos), e a pessoa quase nunca percebe que apagou. A 60 quilômetros por hora, três segundos de apagão equivalem a 50 metros percorridos sem ninguém no comando do carro.
A sensação de estar alerta não serve como teste. Quem está com sono avalia mal o próprio sono, pelo mesmo mecanismo que faz quem bebeu achar que dirige bem. A adrenalina da madrugada com o bebê doente acorda o corpo por alguns minutos e não devolve ao cérebro as horas perdidas.
Nenhuma blitz brasileira mede o sono do motorista. Não existe bafômetro de cansaço, e o pai exausto passa por qualquer fiscalização sem multa. O risco fica inteiro com a família dentro do carro, e a próxima seção mostra como decidir quem dirige.
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II Guia Prático
Quatro perguntas antes de pegar a chave
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A decisão de dirigir se toma com números, e a sensação fica fora da conta. Às 0h30, com o bebê chorando, a cabeça do pai não consegue pesar riscos com calma. Por essa razão, a conta precisa estar pronta antes da emergência, anotada no celular ou num papel na porta da geladeira.
As quatro perguntas, nesta ordem:
1. Há quantas horas estou acordado? Conte desde a hora em que levantou. Passou de 17, o volante deixa de ser opção segura
2. Quanto dormi nas últimas 24 horas? Menos de 5 horas somadas, o risco sobe mesmo com poucas horas acordado
3. Existe outro adulto descansado em casa? Mãe, avó, vizinho: quem dormiu mais dirige
4. A viagem pode ser feita por outro meio? Táxi, carro de aplicativo, ou o SAMU pelo 192 quando o bebê tem sinal de gravidade
O corte de 5 horas tem dono. Em 2016, o pesquisador Brian Tefft, da AAA Foundation for Traffic Safety (fundação de segurança viária ligada à associação de motoristas dos Estados Unidos), analisou acidentes reais e calculou que quem dormiu de 4 a 5 horas nas 24 horas anteriores tinha risco de batida cerca de quatro vezes maior que quem dormiu 7 horas ou mais. Abaixo de 4 horas de sono, o risco passou de onze vezes.
Quando não há outra saída e o pai precisa dirigir, duas medidas ajudam por pouco tempo. Em 1997, os pesquisadores britânicos Louise Reyner e James Horne, da Universidade de Loughborough, testaram motoristas sonolentos num simulador. A combinação de 150 miligramas de cafeína (uma xícara grande de café coado) com um cochilo de 15 minutos reduziu as saídas de pista mais que cada medida sozinha. O café leva cerca de 20 minutos para agir e, por essa razão, vem antes do cochilo.
Janela aberta e rádio alto quase não funcionam. Reyner e Horne testaram ar frio e música no mesmo tipo de simulador, em estudo publicado em 1998, e o efeito durou poucos minutos. O motorista se sente mais esperto e continua apagando.
Os sinais para encostar o carro assim que aparecerem:
1. Bocejo seguido, um atrás do outro
2. Piscada pesada, com o olho que fecha sozinho
3. Branco na memória, sem lembrar os últimos quilômetros
4. Saída perdida, passou do retorno sem perceber
5. Roda na faixa, tocando a linha ou o acostamento
A parte do pai aqui é o combinado feito de dia. Quem acorda com o bebê às 3h não deveria ser o motorista das 7h. O casal decide à tarde, com a cabeça descansada, quem dirige se a madrugada virar pronto-atendimento.
Na nossa opinião: o carro de aplicativo às 0h30 custa menos que qualquer risco no asfalto. Pai que passou das 17 horas acordado chama o transporte e vai no banco de trás, segurando a mão do filho.
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