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Sem vitamina K, o sangue do bebê não coagula

1 miligrama na coxa, na primeira hora de vida, protege o recém-nascido de um sangramento que aparece semanas depois da alta.

Pai observa a enfermeira aplicar a vitamina K na coxa do recém-nascido

A dose de 1 miligrama na coxa

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1 miligrama. É a dose de vitamina K que a enfermeira aplica na coxa do recém-nascido, nas primeiras horas de vida, com uma agulha fina e uma seringa do tamanho de um dedo.

O pai viu a cena de pé, perto do berço aquecido. O bebê estava enrolado num pano, com uma perna de fora. A enfermeira limpou a pele com algodão, segurou a coxa entre o polegar e o indicador e aplicou. O choro durou poucos segundos.

Ele achou que era vacina e perguntou qual. A enfermeira respondeu sem tirar os olhos do bebê: “Vitamina K, pai. A vacina da hepatite vem logo depois”.

Na saída da sala, a palavra ficou na cabeça dele. Vitamina, para ele, era comprimido de farmácia, receitado a adulto cansado. Um bebê de minutos tomando vitamina por agulha parecia exagero de hospital.

Ninguém explicou o motivo, e ele não perguntou. Tinha a mãe para olhar, o celular tocando e uma pulseira de identificação para conferir.

Dias depois, num grupo de pais, alguém contou ter recusado a injeção. Escreveu que era desnecessária, que o leite materno dava conta e que o bebê tinha nascido perfeito. Outros pais responderam com dúvida. Um pediatra entrou na conversa e escreveu uma frase só: a doença evitada pela injeção aparece semanas depois da alta.

O pai foi atrás da caderneta da criança. Na página do parto, achou a linha “vitamina K” com um visto e a via escrita à mão: intramuscular (aplicada dentro do músculo). Logo abaixo, a vacina da hepatite B.

O nome da doença assusta pelo comprimento: doença hemorrágica do recém-nascido por deficiência de vitamina K. A forma tardia aparece entre a segunda e a décima segunda semana de vida, quando o bebê já está em casa, mamando e dormindo bem.

E o lugar onde ela costuma sangrar é o pior possível. Em metade dos casos tardios, o sangramento acontece dentro do cérebro, segundo a revisão da Academia Americana de Pediatria publicada em 2003.

O motivo de um bebê saudável nascer com pouca vitamina K foi descoberto num laboratório dinamarquês, com pintinhos, muito antes de alguém pensar em recém-nascidos. A história começa nesse laboratório.

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I  O Fato da Semana

Os pintinhos de Henrik Dam

A resposta de ontem

Por que Virginia Apgar trocou a cirurgia pela anestesia?

Quem a empurrou foi Allen Whipple, chefe da cirurgia de Columbia. Em plena Grande Depressão, cirurgiã mulher quase não conseguia paciente, e a anestesia precisava de médicos. Ela aceitou, treinou em Wisconsin e Nova York e passou a chefiar a nova divisão de anestesia de Columbia em 1938.

A descoberta veio de uma dieta errada. Henrik Dam, bioquímico dinamarquês que pesquisava em Copenhague, alimentou pintinhos com ração sem gordura em 1929. Ele queria estudar como o corpo fabrica colesterol.

Os pintinhos começaram a sangrar. Depois de algumas semanas, apareceram manchas roxas sob a pele e sangramentos que não paravam. O sangue deles demorava muito para coagular (formar o coágulo, a rolha que fecha o corte).

Dam testou o que faltava. Devolver o colesterol à ração não resolveu. Ele concluiu que a dieta sem gordura tinha tirado outra substância, que se dissolve em gordura e participa da coagulação.

A letra K vem do alemão. Em 1935, Dam publicou o achado e batizou a substância de vitamina K, pela palavra Koagulation (coagulação, em alemão e em dinamarquês). A letra também estava livre na lista das vitaminas conhecidas.

O americano Edward Doisy completou o trabalho. Na Universidade Saint Louis, nos Estados Unidos, Doisy isolou a vitamina K e descreveu a estrutura química dela em 1939. Dam e Doisy dividiram o Prêmio Nobel de Medicina de 1943.

O fígado precisa dela para fabricar a coagulação. Sem vitamina K, o fígado produz versões incompletas de 4 proteínas do sangue, chamadas fatores II, VII, IX e X. Elas circulam pelo corpo, mas não conseguem formar o coágulo.

O recém-nascido chega com estoque baixo. A placenta deixa passar pouca vitamina K da mãe para o bebê. O intestino do recém-nascido ainda não tem as bactérias que fabricam vitamina K no adulto, e o leite materno traz pouca quantidade dela.

A ponte com o bebê veio rápido. Ainda nos anos 1930, médicos ligaram a descoberta de Dam aos sangramentos dos primeiros dias de vida, descritos desde o século 19 com o nome de doença hemorrágica do recém-nascido. Em 1961, a Academia Americana de Pediatria passou a recomendar uma dose de vitamina K para todo recém-nascido.

Na nossa opinião: a injeção nasceu de um laboratório de pintinhos e de 30 anos de confirmação em hospital. Ela compensa um estoque que todo bebê traz baixo, sem depender de a mãe ter comido mal ou feito algo errado na gravidez.

 
 

II  Guia Prático

A dose, a coxa e os sinais de alerta

Quem aplica e quando. O Ministério da Saúde orienta 1 mg de vitamina K por via intramuscular para todo recém-nascido, na primeira hora de vida, ainda na sala de parto ou no alojamento.

Onde vai a agulha. No vasto lateral (o músculo da parte da frente e de fora da coxa). A dose fica guardada no músculo e é liberada aos poucos, durante semanas, e daí vem a proteção até a fase tardia.

Bebê prematuro recebe dose ajustada. Para bebês muito pequenos, a equipe calcula a quantidade pelo peso, seguindo o protocolo do hospital. Pergunte qual dose foi dada e peça que fique anotada.

Existe versão em gotas, com outro esquema. Alguns países usam vitamina K pela boca, em várias doses ao longo das primeiras semanas. A revisão da Academia Americana de Pediatria de 2003 concluiu que a via oral protege menos contra a forma tardia, porque depende de cada dose ser dada no dia certo e de o intestino absorver bem.

Os bebês com mais risco. Os que mamam só no peito, os que não receberam a injeção e os que têm colestase (quando a bile não escoa do fígado e a gordura da dieta é mal absorvida). A colestase costuma dar pele amarelada depois da segunda semana e fezes muito claras.

Os sinais de alerta da forma tardia:

• Sangue no umbigo depois que o coto já secou e caiu

• Manchas roxas em lugar onde o bebê não bateu

• Sangue no nariz, nas fezes ou no vômito, mesmo em pouca quantidade

• Sonolência fora do normal, recusa do peito ou vômitos seguidos

• Moleira estufada (a parte mole no topo da cabeça), firme ao toque com o bebê calmo

O aviso pequeno vem antes. Muitos casos graves começam com um sangramento leve, no nariz ou na pele, dias antes do sangramento no cérebro. Por esse motivo, qualquer sangue sem causa num bebê de até 3 meses pede pronto-socorro na hora.

Se a família recusou a injeção. Ainda dá tempo. O pediatra pode aplicar a dose depois da alta, no consultório ou na unidade de saúde. Até lá, informe a recusa em toda consulta e em todo atendimento de urgência.

A picada dói pouco e por pouco tempo. Amamentar durante a aplicação ou segurar o bebê pele a pele acalma o choro. A mancha vermelha no local some em um ou dois dias.

 

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III  A Conta

81 vezes mais chance sem a dose

O número que resume. O CDC, a agência de saúde pública do governo dos Estados Unidos, afirmou em 2013 que bebê sem a injeção tem 81 vezes mais chance de desenvolver a forma tardia da doença.

A frequência sem proteção. A revisão da Academia Americana de Pediatria de 2003 calculou que, sem vitamina K, a forma tardia atinge de 4,4 a 7,2 bebês a cada 100 mil nascidos. Com a injeção, os casos ficam tão raros que aparecem como relato isolado nas revistas médicas.

O que acontece quando a recusa cresce. Em novembro de 2013, o CDC publicou no boletim MMWR o caso de 4 bebês atendidos em Nashville, no Tennessee, com a forma tardia. Os pais dos quatro tinham recusado a injeção, e 3 deles tiveram sangramento dentro da cabeça.

O cérebro é o alvo. Pela mesma revisão de 2003, metade dos casos tardios sangra dentro do crânio. Parte dos bebês que sobrevivem fica com lesão neurológica, como atraso no desenvolvimento ou convulsões.

O medo do câncer tem origem e resposta. Em 1992, a epidemiologista Jean Golding, de Bristol, na Inglaterra, publicou no British Medical Journal um estudo que ligava a injeção a câncer infantil. Estudos maiores feitos depois, em vários países, não repetiram o achado, e a revisão da Academia Americana de Pediatria de 2003 concluiu que essa ligação não existe.

O risco da própria injeção. Dor no local, uma mancha pequena e choro curto. Reação alérgica grave à dose do recém-nascido é rara e a equipe da sala de parto está preparada para tratá-la.

No Brasil, a dose é rotina gratuita. A vitamina K faz parte dos cuidados da primeira hora previstos pelo Ministério da Saúde, junto do colírio nos olhos e da vacina da hepatite B. Ela sai sem custo na rede pública, entra no prontuário do parto e é copiada na caderneta da criança antes da alta.

O que ainda não se sabe. Ninguém consegue prever qual bebê sem a injeção vai sangrar. A maioria dos que ficam sem dose nunca adoece, e o sangramento costuma surgir sem aviso num bebê que parecia saudável. Como não existe exame que separe os dois grupos antes da alta, a dose vai para todos.

Hoje: abra a caderneta, ache a linha da vitamina K na página do parto e confira em 1 minuto se ela tem o visto e a via; se a linha estiver vazia, ligue para o pediatra até amanhã à tarde e peça a dose.

★ RARO

🔒

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Segundo o CDC, citado na edição, quanto mais chance tem o bebê que não recebeu a injeção de vitamina K de desenvolver a forma tardia da doença hemorrágica?

A18 vezes mais chance
B108 vezes mais chance
C81 vezes mais chance
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