|
|
Trinta centímetros do berço é perto demais
O teste que mediu 14 máquinas de som branco, o volume que passa do limite e a hora certa de desligar o aparelho.
|
O aparelho de som longe da grade do berço
|
| ▼ |
|
O aparelho de som branco chegou na casa como solução de emergência e ficou como móvel. Na maioria dos quartos ele mora no mesmo lugar: em cima da grade do berço, preso na lateral ou apoiado no colchão, a um palmo da cabeça do bebê. Fica ali porque foi lá que funcionou na primeira noite, e ninguém mais mexeu.
Essa posição não foi escolhida, ela foi herdada do improviso. E é justamente a distância que um grupo de pesquisadores canadenses resolveu medir com decibelímetro em 2014, num teste publicado na revista Pediatrics que colocou 14 máquinas de som branco vendidas para bebês dentro de uma câmara de medição.
O resultado não foi sutil. Nenhuma das 14 passou no teste na distância curta, e mais da metade continuou acima do limite recomendado mesmo a dois metros do berço.
O som branco não é vilão. Ele funciona porque mascara os picos de ruído da casa, o portão do vizinho, a descarga, a conversa na sala, e evita que o bebê acorde no meio de um ciclo de sono leve. Para uma casa de apartamento com parede fina, ele resolve um problema real de quem está no turno da madrugada.
O problema mora em três variáveis que quase ninguém regula depois de instalar o aparelho: a distância até a cabeça do bebê, o volume que ficou marcado no botão e o tempo que a máquina passa ligada depois que a criança já dormiu.
O ouvido do recém-nascido ainda está em maturação, e ele passa entre 14 e 17 horas por dia dormindo. Um aparelho ligado a noite inteira ao lado do travesseiro não entrega alguns minutos de exposição, entrega um turno de oito a dez horas seguidas, todas as noites, durante meses.
Não existe motivo para desligar o som branco da casa por causa disso. Existe motivo para mover o aparelho da grade para a cômoda, baixar o botão e usar o timer que a maioria dos modelos tem e quase ninguém liga.
Nesta edição você recebe os números que a medição de 2014 encontrou em cada distância, o ajuste de distância e de volume que resolve na prática, e a conta de exposição que explica por que desligar depois do adormecimento vale mais do que trocar de aparelho. O Fato da Semana começa pela medição.
Continue lendo ↓
|
|
I O Fato da Semana
Catorze aparelhos, catorze estouros
|
|
A medição partiu de um número simples: 50 decibéis. Esse é o teto de ruído recomendado para o ambiente de sono de bebê, o mesmo patamar usado como referência em berçário hospitalar, e é contra ele que os pesquisadores compararam cada aparelho.
As 14 máquinas foram medidas em três distâncias, com o volume no máximo. A 30 centímetros, simulando o aparelho preso na grade. A 1 metro, simulando o criado-mudo ao lado. A 2 metros, simulando a cômoda do outro lado do quarto.
A 30 centímetros, todas as 14 passaram do limite. Nenhuma exceção, nenhum modelo bem comportado, nenhuma marca que se salvou. O resultado foi uniforme e vale para o aparelho caro e para o barato.
Três das 14 chegaram a ultrapassar 85 decibéis. Esse patamar é o limite de exposição ocupacional adotado para trabalhador adulto em jornada de oito horas, com protetor auricular. Um bebê dormindo não usa protetor e não tem como se afastar da fonte.
A dois metros, 13 das 14 ainda estavam acima dos 50 decibéis. A distância ajuda muito, mas não resolve sozinha quando o botão está no máximo, e é por isso que distância e volume precisam andar juntos.
O decibel não é uma escala linear, e essa é a parte que engana. Cada 10 decibéis a mais representa uma percepção cerca de duas vezes mais alta, então a diferença entre 50 e 85 não é de um terço, é de outra ordem de grandeza.
“Todas as máquinas de som para bebê testadas excederam o limite de 50 dBA recomendado para o ambiente de sono infantil quando medidas a 30 centímetros, e três delas produziram níveis acima de 85 dBA.” Hugo, Oliveira e Papsin, Infant Sleep Machines and Hazardous Sound Pressure Levels, Pediatrics, 2014 |
O aparelho não avisa em qual patamar ele está. A grande maioria dos modelos vendidos no Brasil traz uma roda de volume sem escala, sem número e sem indicação de decibel, o que transfere a decisão inteira para o ouvido do adulto às três da manhã.
O ouvido do adulto é um péssimo instrumento nessa hora. Quem está exausto tende a subir o volume até o ponto em que o som cobre tudo, inclusive o próprio choro, e esse ponto costuma estar bem acima do necessário para mascarar o ruído da rua.
A exposição também não é pontual, e esse detalhe muda a leitura do teste. Um aparelho acima do limite por dez minutos é uma coisa; o mesmo aparelho acima do limite por dez horas, todas as noites, durante o primeiro ano, é outra conversa.
|
|
II Guia Prático
Dois metros, meia potência, desligar
|
|
A correção inteira cabe em três ajustes que levam dois minutos. Nenhum deles exige comprar aparelho novo, e os três valem tanto para a máquina dedicada quanto para o celular com aplicativo de ruído.
O primeiro ajuste é a distância, e ele é o mais barato dos três. Tire o aparelho da grade, do colchão e da lateral do berço e leve para a superfície mais distante do quarto que ainda deixe o som audível, de preferência a partir de dois metros.
O segundo ajuste é o volume, e a referência é a voz normal. O som branco precisa mascarar o ruído da casa, não sobrepor tudo: se você precisa levantar a voz para falar com alguém dentro do quarto, o botão está alto demais.
O terceiro ajuste é o tempo, e ele é o mais ignorado. O som branco tem função de transição, ajuda o bebê a atravessar o adormecimento e os despertares curtos, e não precisa ficar ligado da primeira à última hora da noite.
Um jeito prático de conferir tudo sem equipamento:
- Teste da conversa: dá para falar em tom normal ao lado do berço e ser entendido
- Teste da porta: do corredor, o som deve soar como chuva distante, não como chuveiro ligado
- Teste da mão: o aparelho tem que estar longe demais para você alcançar sem sair do lugar
O aplicativo de celular pede um cuidado extra. O telefone costuma acabar dentro do berço ou apoiado na grade para não cair, e nessa posição ele repete exatamente o erro dos 30 centímetros, com o agravante do aparelho quente encostado no colchão.
A rotina que funciona na madrugada tem esta sequência:
1. Posicione o aparelho na cômoda ou na estante, a pelo menos dois metros da cabeça do bebê, apontado para a parede e nunca para o berço
2. Suba o volume devagar até o ponto em que ele cobre o ruído de fundo da casa, e pare aí
3. Faça o teste da conversa com alguém, ou fale sozinho em voz normal e confira se a própria voz sai clara
4. Ligue o timer em 30 a 45 minutos, tempo suficiente para atravessar o adormecimento e o primeiro ciclo
5. Se o aparelho não tem timer, deixe o desligamento como última tarefa de quem vai dormir por último na casa
A troca por um modelo com timer é a única compra que se justifica. Aparelho de som branco com temporizador e volume em escala numérica sai na mesma faixa dos modelos comuns, entre R$ 80 e R$ 250, e resolve dois dos três ajustes sem depender de disciplina.
Na nossa opinião: o som branco entra na mesma prateleira do carrinho e da cadeirinha, equipamento útil que só funciona bem se for instalado direito. Mover a caixinha de lugar é a intervenção de menor esforço e maior retorno da lista de ajustes do quarto, e ela cabe no intervalo entre uma mamada e outra.
|
|