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Um olho só chora o dia inteiro. Não é conjuntivite.
Os três sinais que separam canal entupido de infecção, a massagem com o dedo mínimo, e os cinco sinais de consulta hoje.
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O dedo mínimo no cantinho, antes da mamada
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Cinco e quarenta da manhã, terceira semana em casa. O bebê acorda com os cílios do olho esquerdo colados, uma crosta amarelada seca no canto de dentro, do lado do nariz. O pai limpa com algodão, o olho abre normal, e o bebê mama como se nada tivesse acontecido.
Às nove da manhã a lágrima já está escorrendo de novo, uma trilha molhada descendo até o meio da bochecha. O olho direito passa o dia seco. Só o esquerdo chora, sem o bebê estar chorando.
No grupo da família alguém já mandou o nome: conjuntivite. Vem junto a receita da avó, o chá de camomila morno na gaze, e o colírio que sobrou do primo, guardado na porta da geladeira há oito meses.
O pai olha pro bebê e não fecha a conta. Sem febre, mamando bem, dormindo o mesmo tanto. O branco do olho continua branco. A pálpebra não está inchada. E o outro olho, no mesmo berço e nas mesmas mãos, não tem nada.
A diferença entre os dois nomes não é detalhe de vocabulário. Um deles muda o que o pai faz nos próximos trinta dias: um pede colírio com receita e olho examinado, o outro pede trinta segundos de massagem duas vezes por dia e paciência medida em meses.
Existe ainda uma terceira lista, curta, que não aceita espera. São cinco sinais que trocam a massagem pela consulta no mesmo dia, e todos cabem numa olhada de dez segundos no rosto do bebê.
Nesta edição você recebe os três sinais que separam canal entupido de infecção, a massagem certa no cantinho de dentro, a limpeza com soro que não devolve secreção pro olho, o prazo que ainda conta como espera normal e os cinco sinais que furam a fila. O Fato da Semana começa pelo ralo que ainda não abriu.
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I O Fato da Semana
O ralo do olho que ainda não abriu
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O olho fabrica lágrima o tempo todo, e não só quando o bebê chora. A lágrima lava a superfície e escorre por um ralo no canto de dentro, dois furinhos minúsculos que descem por um canal fino até dentro do nariz.
Esse canal termina numa membrana que precisa se abrir no nascimento. Na maior parte dos bebês ela rompe nos primeiros dias. Quando não rompe, a lágrima não tem por onde descer e transborda pela pálpebra, o dia inteiro.
O nome é obstrução congênita do canal lacrimal, e o quadro é comum. MacEwen e Young, na revista Eye, em 1991, acompanharam 4.792 bebês no primeiro ano de vida: 20 de cada 100 tiveram lágrima escorrendo por obstrução em algum momento.
O mesmo trabalho trouxe a parte que acalma o pai. Entre os bebês afetados, 96 de cada 100 chegaram ao primeiro aniversário sem sintoma nenhum, sem sondagem, sem cirurgia e sem colírio.
Um olho só é a regra, não a exceção. A obstrução aparece de um lado em cerca de dois terços dos bebês. Infecção de conjuntiva costuma tomar os dois olhos em um ou dois dias, porque a mão do bebê e a mão do adulto levam o material de um lado pro outro.
O branco do olho é o sinal que mais separa os dois quadros. No canal entupido a conjuntiva segue branca e a claridade não incomoda. Na conjuntivite o branco fica rosado ou vermelho, e a pálpebra costuma inchar junto.
A secreção também tem textura diferente. No entupimento ela é mucosa, esbranquiçada ou levemente amarelada, junta durante o sono e cola o cílio ao acordar. O olho passa o resto do dia molhado, mas limpo.
Pus amarelo espesso que volta em minutos, nos dois olhos, é outra história. Ali a secreção é contínua, a pálpebra fica pesada, e o bebê aperta as pálpebras quando a luz bate.
Febre não faz parte do canal entupido. Lágrima escorrendo com temperatura alta medida não é problema de encanamento. A febre manda investigar outra coisa, e nos primeiros três meses ela manda no mesmo dia.
O que confunde é a crosta seca do amanhecer. Ela aparece nos dois quadros, e costuma ser o único sinal que o pai registra, porque é o que dá pra ver no berço às seis da manhã.
O tempo pesa mais que o risco. Com o olho molhado, branco e sem dor, a visão não está em jogo, e o incômodo é do adulto que seca a bochecha oito vezes por dia.
Os três sinais que apontam canal entupido, não infecção:
- Um olho só: o outro passa o dia seco, semana após semana
- Branco limpo: a conjuntiva não fica rosada e a claridade não incomoda
- Bebê inteiro bem: mama, dorme e ganha peso, sem febre medida
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II Guia Prático
Dedo mínimo, de cima pra baixo, duas vezes
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A massagem não é carinho no cantinho do olho, é pressão. Kushner, na revista Archives of Ophthalmology, em 1982, comparou bebês sem massagem, com massagem frouxa e com massagem de pressão firme: o grupo da pressão abriu o canal com muito mais frequência.
O ponto certo fica entre o canto de dentro do olho e o nariz. Você sente ali um relevo mole do tamanho de um grão de feijão: é o saco lacrimal, o reservatório que enche antes do canal fechado.
O dedo é o mínimo, e a unha precisa estar curta. Dedo grosso escorrega e acaba pressionando o globo ocular. Unha comprida arranha uma pele que tem meio milímetro de espessura.
O movimento é de cima pra baixo, sempre no mesmo sentido. Pressione com firmeza sobre o relevo, deslize em direção ao canto da boca sem soltar a pressão, solte só no fim do trajeto e volte ao ponto de partida.
A dose é dez deslizes seguidos, duas vezes por dia. Antes da primeira mamada da manhã e antes do banho da noite funciona bem, porque prende a tarefa em duas coisas que já acontecem todo dia.
Mãos lavadas antes, sem exceção. Sabão e vinte segundos na pia, ou álcool 70% esfregado até secar, e nada de encostar no rosto do bebê depois de mexer no celular.
A limpeza vem depois da massagem, com soro fisiológico. Gaze estéril embebida em soro 0,9%, uma passada só, do canto de fora em direção ao nariz, gaze nova a cada passada e uma gaze diferente pra cada olho.
Passada única é o detalhe que quase ninguém cumpre. Gaze que volta pelo mesmo trajeto devolve pro olho a secreção que acabou de sair. Algodão solta fiapo no cílio e não serve aqui.
Três receitas circulam no grupo da família e nenhuma abre canal: leite materno pingado no olho, chá de camomila morno na gaze e colírio que sobrou de outra pessoa.
Duas delas ainda contaminam o olho que estava limpo. Leite e chá viram meio de cultura em temperatura ambiente. Colírio aberto há meses tem a ponta do frasco suja, e parte deles leva corticoide, que num olho infectado piora o quadro.
A rotina completa, na ordem, em menos de dois minutos:
- Mãos lavadas e unha do mínimo curta: sabão e vinte segundos antes de encostar no rosto
- Dez deslizes firmes de cima pra baixo: do relevo no canto de dentro em direção ao canto da boca
- Gaze com soro, de fora pra dentro: uma passada por gaze, uma gaze por olho, sem repetir o trajeto
- Repetir de manhã e de noite: preso na mamada e no banho, todo dia, por semanas
Na nossa opinião: prender a massagem em duas âncoras que já existem no dia é o que separa o canal que abre em três meses do que continua molhado até o consultório: o tratamento depende de repetição, não de técnica difícil.
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